O mercado de locação no Brasil: mais perdido que cego em tiroteio

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Cego_em_tiroteio

O post de hoje não é exatamente um protesto, mas uma constatação crítica do que está acontecendo com o mercado de locação brasileiro. Em primeiro lugar, gostaria de dizer que já utilizei muito o serviço de locação de vídeo nos velhos tempos de VHS, em uma época em que não existiam colecionadores de filmes (pois poucas pessoas se aventuravam em arcar com fitas mofadas na coleção) e seriados só chagavam até nós pelos canais (abertos) de TV.

Desde o início de 2005 eu não alugo mais DVD. Foi quando iniciei minha coleção (sim, comecei a colecionar tarde). Lembro que o último DVD que retirei em uma locadora foi o de “Os Incríveis” (no lançamento) e de lá pra cá, invisto na coleção e não em locação, pois penso que o preço que se paga para alugar um DVD é muito alto para ver temporariamente um material que, na maioria dos casos, tem só o filme, muitas vezes mutilado em um dos seus aspectos técnicos (imagem ou áudio). Como valorizo bastante os extras (coisa que quem aluga não dá muita importância), tenho menos motivos ainda para sair de casa para ir até uma locadora.

Mas não é por que não alugo mais filmes que não acompanho o mercado de “empréstimo pago” de filmes. Tenho muita atenção com os fóruns específicos no Orkut (toda semana tem locadora fechando por lá) e nas listas de discussão sobre o assunto, sempre com o intuito de comparar o que está acontecendo não só com os lançamentos, mas também com o comportamento do “mercado” de vídeo no país.

Neste sentido, na semana que passou tive a oportunidade de ler uma entrevista da diretora-executiva da UBV (União Brasileira de Vídeo, entidade que representa as produtoras, replicadoras e distribuidoras de vídeo no Brasil), Tânia Lima, publicada no Jornal do Vídeo desse mês. A entrevista de três páginas é centrada na questão da pirataria e na defesa dos interesses dos representados pela UBV, que não por coincidência foi a mentora da campanha criticada aqui no blog.

Pois bem: para meu total espanto e constrangimento, não há durante toda a entrevista menção ao mercado de venda direta de DVDs, nem como melhorá-lo, nem como ele poderia colaborar para o incremento dos lucros dos representados ou no combate ao Capitão Gancho – o antigo demônio das locadoras (descobri agora que a internet é o principal vilão de quem vive do aluguel de filmes)! Está certo que a publicação é voltada para as locadoras e tal, mas ignorar totalmente o diferencial de venda do DVD para o VHS (que é o mercado de venda direta), por exemplo, foi demais pra minha cabeça.

Destaquei alguns pontos da entrevista, a seguir (para quem quiser ler na íntegra, vá até a página 96 do PDF), grifos meus:

A pirataria seria a principal causa da situação atual do mercado de vídeo?
Hoje a internet é uma ameaça maior do que a pirataria. No sentido de tirar o consumidor de dentro da loja, da frente da televisão. Hoje se fica horas na internet. É o bate-papo, pesquisa, trabalhos. As pessoas não falam mais com ninguém, elas só teclam o tempo todo. O Brasil já está praticamente em primeiro lugar do mundo em termos de uso da internet, com 24 horas/mês de média. A maior parte do nosso público foi perdida para o entretenimento da internet. Aí, depois sim, você tem o problema da pirataria, pela grande disponibilidade. Para ir a uma loja procurar um filme, você tem que se programar para isso. Mas se estiver passando em qualquer esquina, a pirataria está disponível. Comprovadamente, boa parte das compras acontecem por impulso; se não houvesse essa disponibilidade, você nem lembraria que tem produto pirata.

Não é à toa que o mercado de locação está em declínio (a revista traz alguns números sobre este assunto): identificar a internet como vilã da história até tem certo fundamento, dentro do aspecto comportamental do brasileiro. Mas como o mercado de locação está reagindo a tudo isso? Pelo que sei das leituras que faço sobre o assunto, o modelo de negócios é o mesmo da década de 80! Fora as locadoras virtuais (que por amarga ironia estão, justamente, na internet) que cobram mensalidade e você pode ficar com o filme quanto tempo quiser, o que foi feito de lá pra cá em termos de renovação? Absolutamente nada. E o que a UBV poderia colaborar para ampliar não só a locação, mas também a VENDA de DVDs e o combate a pirataria? Será que um controle maior do que está sendo vendido no país não seria uma atribuição dela? Nem falo de preço final para o consumidor, mas será que a UBV não poderia promover uma campanha de incremento de qualidade nos produtos de seus representados? Com certeza, como já cansei de dizer aqui no blog, o Brasil precisa diferenciar o produto original do pirata, pois só assim é que será criado um novo paradigma e uma nova cultura de consumo deste artigo.

Prosseguimos com a entrevista:

Qual a sua estimativa de queda do mercado de rental (locação)?
Comparado com 2006, em 2007 deixamos de vender 2,4 milhões de peças, só no rental. Esse volume multiplicado por um preço médio nacional de locação de, digamos, R$ 4,00 e 30 locações que se fariam, pelo menos, ao longo do ano, dá a dimensão do que a locadora deixou de faturar. Todo mundo perdeu, e perdeu muito. Inclusive o cinema nacional. Pelo artigo terceiro, um percentual de tudo o que é vendido é destinado à produção de filmes nacionais. Então, estimamos que pelo menos 7 ou 8 filmes grandes, de ponta, deixaram de ser produzidos. A nossa participação na produção nacional é importante.

Realmente, os prejuízos são grandes, e interferem em mais de uma dimensão da economia. Não é demais lembrar que foi justamente entre 2006 e 2007 que a maioria das produtoras começou com a esculhambação de seus produtos, com edições cada vez mais porcas, estojos de baixa qualidade e produtos cada vez mais parecidos com os vendidos pelos camelôs (coisa que quem aluga TAMBÉM percebe). Ao invés de contra-atacar com um aumento de qualidade, resolveu imitar a “concorrência”, deixando o produto cada vez mais com cara de saquinho plástico. Daí o sujeito que aluga pensa: “pago o mesmo (ou menos) que essa locação no camelô, e o DVD será meu! Já que não tem diferença entre o da locadora e o do camelódromo, vou comprar do Zé que é meu amigo e me dá garantia”!

Segue a Sra. Tânia:

Você trabalhou muitos anos na área de vendas de distribuidoras. Agora, como diretora-executiva da UBV, como vê a situação atual do mercado?
O mercado tinha um tamanho, viveu uma crise, houve uma retomada com o DVD e entrou em crise novamente. […] O Blu-ray vem como um estímulo, mas não saberia dimensionar o tamanho desse novo mercado. Lembro que ninguém esperava, também, que o DVD fosse provocar aquela explosão toda. Para mim ainda é uma incógnita, até porque não tenho mais contato direto com vendas. Fomos tirados de nossa zona de conforto e estamos novamente numa fase de aprendizado. Nós viemos com um modelo de locadora nos últimos 25 anos. Mudou a fachada, a cor do móveis, mas o modelo de negócio é exatamente o mesmo. E com novas alternativas de entretenimento surgindo. Essa estagnação pode ter levado a uma perda natural. […] Mas uma coisa é certa: lugar de filme é na locadora. Não é na livraria, não é no magazine. Ele pode estar também dentro de uma loja de departamentos, dentro de um supermercado. Mas será apenas mais um entre os milhares de itens. Não quero desmerecer o varejo, mas ressaltar a importância da locadora como loja de filmes, e não apenas para locação.

Confesso que fiquei pasmo com o que foi dito nesta última parte da resposta (em vermelho). Tentei por várias vezes, lendo e relendo, interpretar de outra maneira o que foi dito, mas não consegui. Está claro, pelo que está escrito, que o mercado de venda direta não interessa aos representados pela UBV. Ao contrário da maioria dos países desenvolvidos economicamente, aqui no Brasil, DVD não é artigo de consumo como outro qualquer.  É artigo de locação, QUE ATÉ PODE SER VENDIDO. Foi a partir dessa declaração que fiquei refletindo sobre a pouca importância que os colecionadores têm aqui no país, pois se DVD é para estar apenas na locadora (mesmo que para ser vendido), a UBV, através de sua representante, não o considera como artigo a ser popularizado. Se o intuito é defender a vida das locadoras com isso, deveriam estimular REALMENTE a venda através deste canal. Porém acredito que a maioria dos donos de locadora não pensa em vender algo tão caro e com qualidade tão baixa como são os DVDs brasileiros. E até entendo que, para ele, é mais negócio seguir locando, do que se entupir de DVDs, pois de qualquer maneira com esse tipo de produto que está sendo feito aqui, todo mundo vai seguir comprando em camelô, pelo que exemplifiquei no comentário da resposta anterior.

A entrevista prossegue (vale a pena ler tudo), mas encerro por aqui dizendo que, através destes trechos da entrevista, podemos perceber tudo o que está acontecendo com o mercado de locação brasileiro e com os colecionadores tem uma causa comum: a ausência de uma estratégia realmente estruturada, articulada e que tenha como objetivo ampliar as vendas e as locações de DVDs através de sua qualificação. E é uma pena que isso aconteça também com as locadoras (presentes há anos nas nossas vidas), pois mesmo que sejam “duras de matar”, estão, por tudo isso que foi tratado aqui, “mais perdidas que cego em tiroteio”.