O custo do baixo custo

89
397

DSC05366666666
Assim era a coleção antes das lombrigas atacarem mais ferozmente.

Nos últimos dias, estou procurando me desfazer de uma considerável quantidade de DVDs. Em sua maioria são produtos espartanos que, à época da compra, custavam entre R$ 9 e R$ 13, ou seja, tudo DVD que saiu relativamente barato. Hoje, porém, vejo que nada acrescentam à coleção e, por isso, vão embora. Muitas edições caprichadíssimas, por sua vez, permanecerão nos seus devidos lugares na estante, posto que, fora eventuais “bugs ”, eu tenha desembolsado uma significativa quantia nelas. Isso evidencia que uma coleção não vive só de preços baixos e, noutra abordagem, suscita uma indagação: a que (alto) custo deve o mercado buscar o baixo custo?

imag3 002222222222
Este é o aspecto hoje. Ou algo muito semelhante.

Sou ciente, no entanto, que a maior parte dos consumidores de discos com conteúdo em vídeo não são entusiastas como eu. Para muitos, o custo qualitativo não importa tanto quanto o econômico. De qualquer forma, penso que meu caso ilustrativo do parágrafo anterior aponta para uma tendência de, com o perdão do neologismo, “descartabilidade” do produto. E, para um colecionador, essa é uma constatação aterradora, porque evoca intuitivamente uma idéia de falta de sentido, inutilidade mesmo, do ato de colecionar e da coleção em si.

Com o advento do Blu-ray, então, essas idéias passaram a frequentar ainda mais a minha mente que, ainda durante a era de ouro dos DVDs, já antevira um prenúncio e sentira um tanto do gosto de tais perturbações. Hoje, quando olho para os meus mais de 700 DVDs, é como se estivesse encarando – da mesma forma que alguns conseguem ver a morte em pessoa; suspeito, no entanto, que o caso aqui não seja tão grave… – a corporificação da obsolescência em si a ocupar mais da metade de minha estante. Sem contar a injúria ao matiz estético de meu quarto, problema agravado por um espelho que, situado num ângulo obtuso em relação à estante, não me deixa esquecer dos disquinhos obsoletos nem quando estou de costas para a coleção.

DSC053703
A situação de alguns preciosos que hoje nem são tão preciosos assim.

Quem me ouve falar assim, ou lê as tortas linhas acima, pode pensar que com o tempo passei a desgostar da minha coleção. Mas isso não é verdade. Como aquele aforismo que diz que o todo não é a mera soma ou justaposição das partes, digo que cada vez gosto mais da coleção como um todo, o que, no entanto, não me impede de perceber que há sim ali partes que não apenas nada acrescentam ao todo, como também lhe subtraem algo da própria essência quando arrostado àquela representação mental que, presumo, todos os colecionadores têm de como deveria ser a coleção em seu estado ideal.

imagem12Não ignoro, contudo, que essa visão quimérica e idealizada da coleção costuma mudar com o tempo e com as circunstâncias. No meu caso, para fins de ilustração, antes do Blu-ray, o norte que, nas palavras do Jotacê, excitavam as “lombrigas colecionistas ” era um; agora certamente já é outro. Aliás, quase todo dia ele muda, e até mesmo algum DVD abandonado ali no armário, aguardando por um destino qualquer, longe de aonde um dia pertenceu, pode porventura acabar voltando para a estante.

Mas qual a razão de toda essa divagação? Porque dela se pode vislumbrar um notável fenômeno, qual seja, de que, com o tempo, o mercado amadurece e passa a ser mais seletivo. Quem não tem condições de comprar o produto original, com ou sem pirataria, continua, de qualquer forma, sem comprar. Já os “espertinhos” e os “sem-frescura”, persistindo o cenário de impunidade, não encontram razões para deixar de comprar o pirata, porque por mais que as distribuidoras se esforcem para piorar seus produtos originais, eles no máximo conseguem ser tão ruins quanto o “alternativo”, mas continuam mais caros e sem aquele sedutor charme fora-da-lei que tanto atrai a rebeldia perfunctória dos nossos dias, incubada no caldo da cultura da malandragem matreira do “homem cordial”. O consumidor médio e honesto, aquele que só compra eventualmente, continua assim, comprando eventualmente, embora com mais rigor na hora de avaliar preço e qualidade, custo e benefício.

Já os consumidores mais assíduos, tais como os colecionadores, esses seres exóticos, “com-frescura”, e que possuem cativo lugar no mercado formal de DVDs e Blu-rays – porquanto não lhes passa pela cabeça exibir um só produto pirata em suas estantes – , enfim, estes passam a exigir cada vez mais e mais qualidade. Daí porque, num cenário adverso para tão singelo aspecto – como o é o mercado brasileiro atual –, passam a buscar não a alternativa ilegal da pirataria, mas a alternativa legal da importação e, não muito raro, até mesmo a alternativa legítima da criação caseira, para consumo próprio, do produto na forma que consideram adequada.

E, desta feita, a buscar outros meios cada vez mais distantes do mercado nacional vão sendo coagidos esses incansáveis bons consumidores. Perdidos em meio a condenáveis práticas ilegais e imorais no seio da informalidade pirata, reforçada pela cultura dos “intrépidos descolados” para os quais “quanto pior, melhor, ou tanto faz…”. E, bem assim, sufocados pela medíocre política das distribuidoras que, ainda que involuntariamente, mas na exata medida em que vão nivelando cada vez mais por baixo seus produtos originais, consiste basicamente em emprestar legitimidade àquele “mercado alternativo”, numa vistosa competição entre “iguais”. E, acerca de tal semelhança entre os sujeitos desta acirrada disputa, receio estar sendo otimista demais, uma vez que, ao menos quanto a esse admirável padrão novo de acabamento e qualidade, há evidências, aqui e ali, de que as distribuidoras estão prestes a superar seus experientes concorrentes.

[ad#1-amzuktop]

[ad#sub550]