Os 5 pecados dos Blu-rays das produtoras independentes no Brasil

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O Dunga representa as produtoras nanicas que fazem muitas trapalhadas,
como o Blu-ray de Akira lançado no Brasil!

Parece que finalmente o Blu-ray está se tornando algo mais popular entre os colecionadores brasileiros. A popularização dos televisores HD, a queda dos preços dos players e os títulos chegando a preços mais aceitáveis (mesmo com algumas distribuidoras ainda insistindo em valores irreais) fizeram o Blu-ray sair do nicho dos entusiastas para ganhar (de forma tímida, concordo) as prateleiras dos magazines populares do país. A qualidade dos lançamentos no formato, ao contrário do que ocorre no mercado de DVDs, ainda é positiva em sua grande maioria.

Só que o lançamento do péssimo BD de banca da Editora Red Sun fez todos os colecionadores veteranos entrarem em alerta amarelo. Isso porque quem acompanha o mercado de Home Video brasileiro teve uma sensação de dèja vu: com a popularização do DVD, as produtoras nanicas passam a lançar produtos de baixíssima qualidade para o mercado de locação, bancas de jornais e balaios de promoções; quando as majors começaram a fazer o mesmo, se instaurou a vagabundização total e foi o fim das edições de qualidade.

Por isso, este post tem a intenção de alertar os consumidores sobre os principais erros que as distribuidoras independentes cometem, discutindo e exemplificando cada um deles.

Nem todos os filmes conseguem ser distribuídos no Brasil pelas maiores empresas do setor de home video (Fox, Warner, Sony, Paramount, Universal e Disney). Estúdios menores e produtoras independentes negociam os direitos de distribuição de seus títulos caso a caso, sendo que na maioria das vezes são adquiridos por distribuidoras que chamamos de “independentes”.

Distribuidoras como Europa Filmes, PlayArte, Imagem Filmes, Focus/Flashstar, Califórnia Filmes e Paris Filmes possuem uma estrutura técnica e financeira bem mais modesta do que as grandes. Certamente elas conseguem encontrar seu nicho no mercado e auferir lucro; o problema é quando esta falta de estrutura se reflete nos títulos que elas lançam. Tais empresas cometeram (e ainda cometem) várias mancadas em seus DVDs; quando se meteram a lançar títulos em Blu-ray, não aprenderam a lição e persistem nos mesmos erros. Esses pecados são:

1- Falta de extras

Poucas pessoas sabem que os extras contidos nos títulos lançados em DVD e BD tem de ser negociados à parte do filme. No caso das majors este processo é mais simples, uma vez que (na maioria das vezes) as empresas que produziram o conteúdo adicional fazem parte ou são associadas às produtoras do filme; por sua vez, as distribuidoras desse material também fazem parte dos mesmos conglomerados.

Por sua vez, as distribuidoras independentes não possuem tais regalias. Se elas querem incluir extras em seus lançamentos, devem negociar com os detentores da propriedade deste material e pagar por este da mesma forma que pagam pelo filme. Obviamente isso impacta no custo total de cada título e, dependendo do caso, pode não ser lucrativo incluir extras em todos.

Ok, isto explica a situação. Todavia, não justifica o que algumas distribuidoras fazem. Algumas delas lançaram seus DVDs em edições com extras; na hora de fazer o mesmo em sua contraparte em Blu-ray, eles não incluem esses extras. Ora bolas, se os direitos dos extras já foram negociados para o DVD, por que não inclui-los no lançamento em alta definição? Fica a situação estranha da edição em DVD ser mais completa que a em BD, quando a lógica pede que seja o contrário (ou não querem valorizar o produto com maior valor agregado?

O pior é quando os extras estão licenciados, contudo são removidos para que a distribuidora consiga lançar o título em discos de camada simples (que são mais baratos de replicar). Como o preço de varejo é o mesmo independente da mídia usada, é um jeito simples de aumentar as margens de lucro. Mas não deixa de ser uma canalhice com o consumidor que paga mais pra levar menos.

O_PACTO_DOS_LOBOS

Que extras, cara pálida?

2- Mutilação de imagem

Se a falta de extras ainda se explica, alterar o aspecto de tela original de um filme é imperdoável. O BJC é contra a mutilação de obras de arte e não existe justificativa para que isso ocorra. As desculpas são várias: a master veio assim; o consumidor não gosta de barras horizontais ao assistir filmes, etc.; nada disso se sustenta. Livros não têm páginas cortadas; CDs não vêm com músicas cortadas; por que os filmes têm sua imagem cortada?

Esta praga ainda assola os DVDs das distribuidoras nanicas, o que já é um demérito. Entretanto, este tipo de coisa chegar aos BDs é uma piada de mau gosto. Quem compra Blu-ray é porque deseja ter qualidade máxima de imagem, e tê-la cortada para que preencha toda a tela de TVs Widescreen vai totalmente contra este princípio. Não bastasse esta prática estragar a composição imaginada pelo diretor do filme quando da sua feitura, o zoom feito na imagem diminui a qualidade dela.

Vejamos: Se a distribuidora recebe a master de um filme com aspect ratio de 2:35 (que gera barras em TVs Wide) em resolução 1920 x 1080 pixels (1080p), transformá-la em uma imagem no aspecto 1:78 (tela cheia em TVs Wide) implica em cortá-la e depois ampliá-la. Neste processo invariavelmente se perde resolução e, consequentemente, qualidade.

Quem quer um filme com 25% a menos de imagem?

3- Ausência de áudio HD

O Blu-ray é vendido para o consumidor principalmente pela qualidade superior de imagem. Porém, na minha opinião, o aspecto mais positivo do formato é o áudio HD. A imersão que um formato de áudio sem perdas proporciona ao cinéfilo torna a experiência de se assistir filmes muito mais prazerosa. Só que algumas distribuidoras se esquecem deste detalhe e preguiçosamente colocam em seus BDs a mesma trilha de áudio que utilizam em seus DVDs.

As desculpas são as mesmas de sempre: falta de acesso aos arquivos, o contrato não permite, aumentaria o preço da autoração. Balela! Lançam BDs com áudio Dolby Digital porque ocupa menos espaço (permitindo usar mídias de camada simples) e para economizar dinheiro na autoração (a trilha em Dolby Digital já está disponível da autoração dos DVDs; pra obter a trilha em DTS-HD ou Dolby True-HD seria necessário gastar com mídia e frete internacional).

E pra quem gosta (ou necessite) de dublagem em Português, mais uma má notícia. Invariavelmente o áudio neste idioma incluído nos BDs das distribuidoras nanicas é em 2.0 apenas. A experiência destas trilhas no home theater é a pior possível, pois perde-se totalmente a ambiência que uma trilha 5.1 proporciona. Utilizar este tipo de trilha em uma mídia de alta definição é um total contra-senso; o mais incrível é que a maioria das dublagens desses títulos é recente, não justificando que sejam feitas apenas em 2 canais.

Mesmo quando o BD vem com o áudio HD, não há garantia que esteja 100%. Por exemplo, o BD Dupla Implacável da PlayArte tem áudio em Inglês DTS-HD 5.1. Bom, né? Negativo: o BD americano possui 7.1 canais; para que coubesse em uma mídia BD-25, o que a distribuidora faz? Reencoda o áudio removendo 2 canais. Resultado: a mixagem de som original se perde e isso impacta na percepção do ouvinte.

anticristo

Dolby Digital 2.0? Tem certeza que isso é Blu-ray?

4- Transferências malfeitas

Outro problema que aflige os filmes lançados por estas distribuidoras são falhas na transferência do arquivo bruto para algo que possa ser autorado em Blu-ray. Uma dessas falhas é a média baixa de bitrate.

Bitrate é a taxa de informações digitais contidas em um stream de dados, medida em bits por segundo. Teoricamente, quanto maior esta taxa for, maior é a qualidade de imagem ou áudio que se consegue obter. No Blu-ray, a taxa máxima que se consegue atingir é de 40 Mbps (Megabits por segundo); o ideal então é que o bitrate médio de um BD fique o mais próximo deste valor.

Só que alguns títulos dessas distribuidoras independentes deixam muito a desejar neste ponto. Peguemos o BD Missão Quase Impossível, da Imagem Filmes. O bitrate médio deste título é de 12,81 Mbps, atrás dos 17 Mbps da edição americana. O baixo bitrate por si só não é um demérito; uma transferência bem feita, utilizando-se um bom equipamento e gastando-se o tempo necessário para comprimir os dados na medida certa, pode não exigir um bitrate muito elevado para se obter qualidade de imagem (com a vantagem de deixar mais espaço livre para material extra). Existem excelentes transferências com um bitrate médio em torno de 20 Mbps, mas isso exige habilidade de quem faz o trabalho, o que nem sempre é o caso em se tratando de empresas com orçamentos mais apertados.

Devemos nos preocupar quando a queda no bitrate ocorre porque a distribuidora trocou a mídia de dupla camada por uma de camada simples ou porque usou equipamento inadequado e/ou pessoal não qualificado para executar a tarefa; neste caso as outras edições do mesmo filme servem como parâmetro para indicar se houve ou não imperícia na hora de fazer a transferência.

dupla

E aí, deu pra descobrir qual é o melhor?

Associado ao baixo bitrate, às vezes a transferência tem defeitos advindos do processo de codificação que passam batidos pelo setor de qualidade das distribuidoras. Pixelização, surgimento de macroblocos e outros artefatos indesejados ficam sem correção e acabam permanecendo no produto final. Tais defeitos podem surgir do uso incorreto do codec MPEG-2 (que tende a gerar mais defeitos na imagem do que o AVC ou o VC-1) ou de problemas técnicos no equipamento utilizado na conversão dos arquivos.

Um exemplo é o que acontece com o BD O Pacto dos Lobos da Europa Filmes. Ocorre pixelização em pelo menos 3 pontos do filme, o que distrai o espectador e não deveria aparecer nem em uma cópia pirata, quiçá num BD original! Isso passa a impressão de descaso com o cliente e de amadorismo da distribuidora, que deveria pelo menos revisar o material antes de mandar pra replicadora.

Pacto dos Lobos 2

Nossa, quanto quadradinho!

5- Autoração porca

A etapa final de criação de um BD é a autoração. É quando se montam todas as “peças” que fazem parte do filme (arquivos de imagem, trilhas de áudio, extras e legendas) e são criados os menus com os quais o consumidor interage com o disco. E mais uma vez as distribuidoras nanicas deixam a desejar. Na ânsia em economizar alguns trocados na autoração, elas cometem algumas gafes que só depõem contra elas.

Uma das mancadas é não utilizar menu raiz no disco, apenas menu pop-up. O menu pop-up é uma sacada genial que permite acessar itens do menu (como seleção de capítulos, áudio e legendas) sem precisar parar o filme. Contudo, a existência deste menu não exclui a necessidade de se ter um menu raiz que sirva como ponto de partida quando se coloca o disco no player.

Só que fazer um menu raiz demanda tempo e, como todos sabem, tempo é dinheiro. Pra economizar, não se cria o menu raiz e o espectador que se vire só com o menu pop-up. Quando se coloca o disco no player, imediatamente o filme começa a tocar; quando este acaba, volta-se ao começo e continua num loop infinito. A impressão que a falta de menu raiz passa é justamente a de mesquinharia, de economia besta; os primeiros BDs da Europa Filmes (como Menina de Ouro e O Pacto dos Lobos) são assim. Felizmente isso está rareando, mas é preciso se manter alerta.

Se este fosse o único problema de autoração encontrado, não seria tão grave; contudo existem outros erros que são difíceis de se explicar, como por exemplo:

  • Legendas minúsculas: alguns títulos (como Rambo IV e Akira da Focus) exigem do espectador visão de águia pra conseguir ler as legendas, uma vez que são muito menores do que estamos acostumados;
  • Legendas mal sincronizadas: Você ouve a voz do personagem, mas a legenda aparece adiantada ou atrasada. Inacreditável, até os rips piratas tem legendas sincronizadas;
  • Menus que não apontam para o lugar correto: Você seleciona uma opção no menu, mas uma outra opção é ativada no lugar. E fica com cara de bobo, achando que fez besteira.

E por aí vai…

Conclusão

Pra quem coleciona DVDs há algum tempo, já deve ter pego pelo menos um desses pecados em títulos dessas distribuidoras menores. Quando elas começaram a lançar títulos na mídia azul, existia a esperança de que elas haviam aprendido com os erros do passado e que seus títulos em Blu-ray seriam tratados com mais carinho. Ledo engano, como pudemos ver.

O pior é que uma estrutura menor e um orçamento mais exíguo não justificam todas essas trapalhadas. Algumas distribuidoras, como a NBO, se redimiram das burradas anteriores e passaram a lançar BDs decentes; até a Spectra Nova, campeã das chinelagens em DVD, conseguiu esta proeza. Outras, como a Versátil, conseguiram manter um nível de qualidade lá no alto mesmo contra todas as adversidades (inclusive praticando preços justos).

Se essas distribuidoras conseguiram vencer suas limitações e se destacaram no mercado, por que as outras não fazem o mesmo? Minha opinião? Incompetência e falta de visão. O consumidor que adquire Blu-ray não é o mesmo que compra DVD nos balaios da Americanas. O nível de exigência é outro; este consumidor está muito bem informado e sabe muito bem o que deseja. Como hoje em dia é muito fácil comprar em lojas internacionais, as distribuidoras independentes precisam melhorar agora ou perderão mercado no futuro próximo. Não criticamos por criticar; realmente queremos ter produtos melhores por preços justos. Todos ganham com isso: colecionadores, lojas e distribuidoras.

Por enquanto é isso; no próximo artigo, prosseguiremos em nossa jornada pelo mundo azul (não tão azul) das independentes. Conheceremos o crème de la crème dos BDs fuleiros: uma lista com os piores exemplares lançados em alta definição pelas distribuidoras nanicas. Pelo que vimos até agora, não teremos muitas surpresas, será?

Os leitores do BJC podem colaborar com informações (boas ou ruins) a respeito deste assunto no tópico oficial dos BDs das distribuidoras independentes do Fórum BJC. Somente com a troca de experiência entre os colegas colecionadores é que poderemos separar o joio do trigo, premiarmos quem trabalha direito e punindo quem só apronta. Nos vemos por lá.

Bônus – erros de rotulagem

Não tem como reclamar da falta de extras e não incluir um bônus pra vocês, não é mesmo? São detalhes bobos, mas indicam o nível de desatenção das distribuidoras pequenas, que tratam BD como se fosse DVD. Vejam só:

BD All

Pô Paris Filmes, BD região All? Não conhece o Pelé?

E ainda por cima NTSC? Forçou a amizade!

NTSC

Caramba Flashstar, você também? Que negócio é esse de Blu-ray NTSC?

Para vocês duas, um recadinho do Padre Quevedo:

quevedo

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