Evangelion em Blu-ray e o Efeito Tostines

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Vende menos porque não tem áudio HD ou não tem áudio HD porque vende menos?

Como já anunciamos na Lista de Lançamentos de Junho, a Paris Filmes lançará o anime Evangelion 2.2 em DVD no dia 15 de junho. A dúvida que ficou é se este título também seria lançado em Blu-ray. O site especializado JBox especulou que sim, inclusive afirmando que “por aqui a primeira parte conseguiu um retorno satisfatório para a Paris, apesar da resistência (declarada) da distribuidora em investir no gênero”. Entramos em contato com a empresa em busca de uma informação definitiva e as notícias não são as melhores pra quem desejava ver esta obra em alta definição.

De acordo com a Paris Filmes, a primeira parte da série Rebuild of Evangelion, Evangelion 1.11: Você (Não) Está Só (lançada em 21 de julho do ano passado) vendeu pouco mais de 300 cópias em Blu-ray, “não compensando o lançamento da segunda parte neste formato“. Pelo que nos informaram, a tiragem mínima para que se lance um BD seria de 1000 cópias, já que o processo de autoração é diferenciado do feito para o DVD. Para a decepção não ser total, a promessa da Paris é que o DVD sairá em edição dupla e enluvada, com todos os extras da edição 2.22.

  • Com esta dúvida resolvida, surge uma nova: porque Evangelion 1.11 vendeu tão pouco?

Quando o BD nacional saiu, a comparação com a edição americana foi inevitável. E neste ponto nós perdemos no quesito embalagem e também ficamos sem o áudio HD nas trilhas em japonês e inglês; é só ver no quadro abaixo. A desculpa fornecida pela empresa para esta ausência foi a de sempre: a produtora que licenciou o material foi quem mandou as fontes em áudio em formato lossy. Já falamos a respeito disso anteriormente e ainda não consigo me convencer por que uma produtora não exigiria que se mandasse o material adequado para a autoração de seus títulos. Ou ela não deseja lançá-los com o máximo de qualidade possível?
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Edição USA (FUNimation) Edição BR (Paris Filmes)
Vídeo MPEG-4 AVC 1.85:1 1080p MPEG-4 AVC 1.85:1 1080p
Áudio Japonês: Dolby TrueHD 6.1

Inglês: Dolby TrueHD 6.1

Japonês: Dolby Digital 5.1

Inglês: Dolby Digital 5.1

Português: Dolby Digital 5.1

Legendas Inglês Inglês
Português
Extras Reconstrução de Evangelion

Angel of Doom

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Reconstrução de Evangelion

Angel of Doom

News Alerts

Movie Previews

Apresentação Digipak com luva metalizada, mais folheto com texto e fotos Amaray HD Case, sem arte interna
Preço (em 04/05/2011) R$ 36 (Amazon.com, frete incluso) R$ 59,90 (Submarino, sem frete)

Comparativo entre a edição americana e a nacional do Blu-ray de Evangelion 1.11

Ok, voltando ao assunto: mesmo com essas falhas, o produto final não ficou tão abaixo da crítica como se imaginava. Como se vê nesta resenha feita por um membro do fórum Pub do Anime, o BD tem sim seus problemas, mas também possui qualidades. Contudo, isso não evitou que este título falhasse na tarefa de conquistar seu espaço entre os colecionadores.

E não é a primeira vez que as baixas vendas afetam os lançamentos de animes. A Focus não terminou de lançar Hunter x Hunter, Super Campeões e Viewtiful Joe (FullMetal Alchemist safou-se desta sina aos 45 do segundo tempo) pelo mesmo motivo. Na opinião deste articulista, a razão disto ocorrer com tamanha frequência reside no círculo vicioso causado por expectativas não cumpridas e falta de confiança, tanto no lado do consumidor quanto do fornecedor.

Mercado para este tipo de produto existe. Basta ver os fóruns especializados para perceber que existem muitos fãs dispostos (pelo menos em teoria) a adquirir suas séries favoritas. As distribuidoras menores certamente enxergam neste nicho uma possibilidade de fazer negócios e auferir lucro. Ao mesmo tempo, não possuem muita margem para riscos: as tiragens têm que ser pequenas, o preço acaba sendo mais elevado e economiza-se onde dá. É aí que começam os problemas.

Primeiro, no que tange o preço final para o consumidor. Os valores praticados em nosso país no sell through de home video já são mais elevados do que deveriam; nos produtos de nicho, com suas baixas tiragens, a situação é ainda pior. No caso de animes, onde a grande maioria do público consumidor não é assalariada (e se o é, não recebe grandes somas de dinheiro); logo, preço (infelizmente) é um fator crítico. Só uma minoria tem condições financeiras de adquirir seus títulos preferidos no lançamento; os demais precisam aguardar uma promoção, surto ou a queda natural de preços com o passar do tempo. Ainda existem aqueles que não precisam de legendas em nosso idioma e preferem importar. E também não podemos nos esquecer daqueles que sucumbem ante o canto irresistível da pirataria. Em suma, mal o produto chega às lojas e seu mercado consumidor já se encontra bastante fragmentado.

Exemplifiquemos com o título que iniciou esta discussão, Evangelion 1.11. Os preços de tabela no lançamento foram R$ 54,90 pelo DVD e R$ 79,90 pelo BD. Hoje, quase 1 ano depois do lançamento, os preços do Blu-ray se alteraram muito pouco. Fazendo uma pesquisa rápida, na maioria das lojas online ainda se vende este título pelo preço de lançamento; já o DVD caiu para um valor mais acessível (R$ 29,90). Pra quem ganha pouco, a diferença de preço pesa bastante na decisão de comprar ou não o BD; consequentemente, o DVD canibaliza sua contraparte em Blu-ray. Temos portanto a primeira justificativa para as baixas vendas do BD.

Agora vamos para a segunda. No afã de baratear os próprios custos, as empresas que lançam animes e tokus invariavelmente capam seus lançamentos, seja em apresentação, seja em conteúdo. Isso é um tiro no próprio pé, já que o público que consome este tipo de material é exigente e troca muitas informações entre si. Qualquer vacilo da distribuidora, qualquer problema no produto, em pouco tempo toda a comunidade já estará sabendo (e, obviamente, criticando).

No caso de Evangelion 1.11, a master de vídeo da edição brasileira é a mesma que americana; assim, a qualidade de imagem está fantástica e respeitando o aspecto original. Os extras também são os mesmos desta edição, então não há queixas até o momento. As diferenças (para pior) se resumem ao áudio e à apresentação.

A edição brasileira possui 3 faixas de áudio, todas em Dolby Digital. Todos já sabemos que a ausência de áudio HD é algo muito criticado pelos colecionadores. Ainda mais porque a edição americana possui 2 trilhas em Dolby TrueHD que receberam nota máxima no site Blu-ray.com.

Como se não bastasse isso, a apresentação desta “Edição Especial de Colecionador” da Paris Filmes é a mais comum possível. Não tem nem comparação com a sensacional edição americana, que vemos a seguir:

Eva USA 1

Eva USA 2

Eva USA 3

Imagens da edição americana de Evangelion 1.11 (Fonte: Amazon.com)

Diante deste quadro, fica mesmo difícil vender esta edição ao preço que a Paris quer. A qualidade do produto, portanto, é outro motivo para as baixas vendas. Só que o ciclo não termina aqui.

A empresa, ao analisar as planilhas de venda, percebe que o título não fez sucesso. Na hora de lançar uma segunda parte, um outro volume ou até mesmo um título similar, fica ressabiada e com medo de tomar outro prejuízo. Existem então dois caminhos a seguir: ou não lança mais nada ou simplifica ainda mais seus próximos lançamentos. Em qualquer um dos casos, a distribuidora perde.

Vejamos: se ela não lançar nada, os fãs ficarão revoltados por não conseguirem ter o material completo. Quando a distribuidora lançar outro título dividido em partes, o que irá ocorrer? Simples, o consumidor não vai comprar nada enquanto não tiver certeza de que a distribuidora vai lançar toda a série. Logo, as vendas iniciais continuarão a ser baixas, a distribuidora desistirá de lançar novos títulos, o consumidor ficará mais desconfiado ainda e o ciclo se repete. Agora, se lançar algo mais pobre, mantendo os preços proporcionalmente elevados, caímos na situação anterior: o colecionador não vai pagar caro pra ter um produto limitado, as vendas continuarão sendo baixas e novamente o ciclo se repetirá.

Este círculo vicioso não é exclusividade do nosso mercado. Por exemplo, a Shout Factory se propôs a lançar a série animada oitentista COPS na Região 1 em 3 volumes. O primeiro volume saiu em Digipak, vendeu pouco; o segundo saiu em estojo comum, vendeu menos ainda; no fim, a distribuidora passou a bola pra outra (Mill Creek) especializada em lançamentos de baixo custo (e qualidade). Quem perdeu neste processo? Todo mundo. A Shout Factory teve prejuízo financeiro e manchou sua imagem; já os colecionadores tiveram que esperar muito tempo para completar a série e ainda teve que conviver com a despadronização dos boxes e queda de qualidade.

Aqui no Brasil, isto acontece com mais constância tendo em vista nossas condições econômicas. No caso de Evangelion 1.11, se o preço de lançamento do BD fosse R$ 49,90 (e caísse depois para R$ 29,90) estaria bem mais apropriado pelo nível do produto que o consumidor recebe e certamente faria mais sucesso. Sem isso, fica difícil querer que as vendas estourem do dia pra noite. Como o episódio da moto exterminadora provou, o colecionador está disposto a pagar o preço justo por um produto de qualidade. Entretanto, ele não se engana mais com essas “pseudo-edições-de-colecionador” que não passam de edições normais vendidas a peso de ouro.

Talvez exista uma saída dessa roda de infortúnios. As empresas de home video precisam se aproximar mais de seu público alvo, entender qual tipo de material ele compraria, saber quanto ele estaria disposto a pagar por isso. A partir daí, fica mais fácil estabelecer uma estratégia de colocação do produto no mercado, permitindo praticar preços honestos e tiragens factíveis, sem impactar na qualidade. Outra possibilidade seria estabelecer parcerias com os sites que agregam os consumidores de seus produtos e/ou utilizar novos métodos de venda para alcançá-lo diretamente, com esquemas de pré-venda (que funcionem) ou venda direta, sem intermediários.

De qualquer forma, é melhor que essas empresas pensem seriamente em mudar suas ações; do contrário, continuarão a conviver com esse dilema Tostines: o produto vende pouco porque é ruim ou é ruim porque vende pouco?

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