Coluna do Fonseca: Extra! Extra! Extra!

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Quem é familiarizado com o DVD desde seus primeiros títulos deve se lembrar daquelas terríveis telas com textos trazendo informações sobre o diretor e o elenco do filme. Para mim, isso jamais pôde ser considerado como um item extra de fato. E é assustador saber que mais de 15 anos depois de sua criação, ainda há produtoras que colocam essas cartelas como material extra em seus DVDs. De qualquer forma, isso serve para mostrar o que não fazer em termos de conteúdo extra. Nesse caso, acredito que a maioria de nós busca um making of, cenas deletadas, erros de gravação, entrevistas, faixas de áudio comentário e claro, quanto mais material for produzido pensado especialmente para esses lançamentos, melhor. Porque é frustrante deparar-se com entrevistas e extras requentados dos canais de televisão. Aquele tipo de making of padrão, que abomino. Não mostra nada de fato, só nos deixa com mais vontade. Infelizmente isso ocorre bastante. Eles divulgam as “horas” de material extra no lançamento, mas para mim a qualidade, nesse caso, supera a quantidade. O ideal seria unir os dois.

Sempre que me perguntam (e já falei sobre isso em alguns Jotacasts), costumo dizer que o mais completo pacote de material extra que tive o prazer de assistir é o presente nas edições estendidas de O Senhor dos Anéis (agora em DVD e Blu-ray, embora o material extra venha em DVD também nesse último). E como não podia deixar de ser, durante toda a produção do filme sabia-se que esse material ganharia a luz do dia em grande estilo. Por isso, tudo, TUDO foi registrado e documentado. É um trabalho maravilhoso, que sempre recomendo a todos que gostam de conhecer os bastidores de uma produção e especialmente àqueles que são apaixonados por Cinema, porque é um material que nos mergulha em todos os aspectos da produção de um filme. Outra produção que possui um extenso e detalhado registro é King Kong, a versão de Peter Jackson. Acredito, aliás, que a equipe de documentário seja a mesma da trilogia dos anéis. No DVD duplo do filme temos todos os “diários de pós-produção” e separadamente existe um box intitulado King Kong – Peter Jackson’s Production Diaries, que traz os “diários de produção”.  Esse, inclusive, com uma apresentação belíssima. Para citar mais um que segue essa linha de documentação do roteiro à estréia, a nova trilogia Star Wars (ou Guerra nas Estrelas, como ainda prefere meu caro amigo Nerd). O documentário do Episódio I começa exatamente assim. George Lucas começando a escrever o roteiro da nova trilogia. E acompanhamos todas as etapas de produção dos filmes, até suas estréias. Gosto muito de um momento em particular (não me lembro em qual extra) em que Spielberg faz uma visita à ILM, onde Lucas lhe mostra uma réplica dos droids que aparecerão no filme.

Outro tipo de documentário que aprecio muito é aquele como O Apocalypse de um Cineasta (Hearts of Darkness: A Filmmaker’s Apocalypse), que relata a produção de Apocalypse Now de maneira crua, visceral e emocional. Sem dúvida nenhuma, referência quando falamos de produções do gênero. Apesar de todos esses que citei até aqui serem materiais extensos, não seriam notáveis caso não possuíssem qualidade. E como exemplo de material extra com grande qualidade, mas que é relativamente curto, tenho o que acompanha o DVD de Encontros e Desencontros (Lost in Translation). O making of dura apenas 30 minutos e embora muitos making ofs de grandes blockbusters também surjam com mais ou menos essa duração, a sensação de que é curto surge justamente porque a qualidade é muito boa e deixa um gosto de “quero mais”. Não é um making of padrão de estúdio. É muito íntimo e imprevisível. O câmera acompanha diversos momentos da produção e o que temos é um olhar mais pessoal, algo que nos coloca mais na posição de participante do que de espectador. Já assisti a outros extras que seguem essa linha, mas infelizmente são poucos. Na maioria das vezes o que temos são aquelas entrevistas com um pôster do filme ao fundo, algo que funciona num canal de televisão de maneira casual, mas que é decepcionante quando investimos tempo e dinheiro adquirindo e assistindo a um DVD ou Blu-ray.

Há certos aspectos de mercado que jamais irei compreender. A indústria cinematográfica tem reclamado muito do avanço do home video, especialmente das curtas janelas de lançamento entre as telonas e o DVD/Blu-ray. No entanto, hoje mesmo li que deve ser um ótimo ano em termos de bilheteria (claro, uns poucos filmes dominando a maioria do mercado, mas são eles que viabilizam os outros). Tanto o home video quanto o cinema sofrem a concorrência desleal da pirataria, assim como dos downloads pela internet (sim, para mim são coisas diferentes). No Brasil, muitas distribuidoras custam em aprender como trabalhar contra isso, mas de uma forma geral, na América do Norte, Europa e Ásia as distribuidoras sabem que precisam oferecer um belo produto para competir com essas “vias escusas”.  E com isso, além de uma bela apresentação, temos sido brindados com material extra em grande qualidade e quantidade. O que finalmente me traz ao motivo de ter decidido escrever sobre isso. Quando comecei minha coleção de DVDs lá em 2001, parte pela grande empolgação, parte pelo dia a dia mais tranquilo, eu assistia a todos os extras das edições numa sentada só. Infelizmente, nos dias atuais não consigo manter essa prática. Aliás, até há uns poucos anos eu conseguia assistir a tudo que comprava (e não sou dos maiores colecionadores por aqui!) no mesmo dia ou dentro de uma semana, no máximo. Agora é triste admitir que tem muita coisa que comprei e ainda não vi. Falando dos extras, então, a coisa está complicada. Prevejo meses ininterruptos para conseguir colocar todo o material em dia! Mesmo assim, os extras continuam sendo parte fundamental no momento em que decido comprar uma edição.

Para os “colecionadores profissionais”, digamos, acredito que a apresentação é muito mais importante que a qualidade e quantidade de extras. E isso faz muito sentido. Acredito que os extras sejam fundamentais mesmo para os apaixonados pelo ofício cinematográfico. E aqui, certamente também há muitos “colecionadores profissionais”. Posso dizer por experiência própria que muitos documentários que possuo em minhas edições são mais completos, didáticos e envolventes do que a maioria das aulas que tive durante a faculdade de Cinema. E é justamente por isso que entendo o porquê de muitas pessoas gostarem tanto desse material. Que colecionador, do que quer que seja, não gostaria de conhecer os bastidores e concepção do produto que coleciona? Mesmo que leve toda a vida, fico feliz em saber que todo esse material está a um play de distância, trazendo consigo uma magia diferente daquela aproveitada quando assistimos a obra em si. E conhecimento, como sempre digo, nunca é demais. Por isso, se faz tempo que não assiste a nenhum extra da sua coleção, que tal ver alguma coisa hoje?

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Algumas edições mencionadas pelo autor neste artigo: