Coluna do Fonseca: Ética

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Meu prodessor de filosofia durante a faculdade (Luiz Felipe Pondé) uma vez disse em uma aula: “Você quer cometer um arroto na mesa? Pergunte numa dessas palestras sobre ética no trabalho: Mas o que é ética?”. Sem dúvida nenhuma é uma discussão muito complexa e que tende a ser defendida de maneira muito particular, baseada nas experiências de vida e na visão de mundo de cada pessoa. Sem nenhuma pretensão de me aprofundar no assunto, tenho para mim que a ética está ligada àquela sensação que temos quando fazemos algo, que pelo menos pra nós, parece errado. Não quero dizer que a ética é um atributo totalmente subjetivo e que existe de maneira particular para cada um, apenas que a sensação íntima de estar fazendo algo errado, mesmo que ninguém ao seu redor aponte isso, é um bom indício.

Vivemos em um momento do mundo em que muitas vezes a ética é vista como fraqueza ou inocência. Para mim é justamente o oposto disso. Agir de maneira ética é algo que busco, que admiro nos outros e que vejo como demonstração de coragem e integridade. Porque geralmente quem age com ética, não está colocando a si mesmo em primeiro lugar. E tenho para mim que a origem de todos os problemas do mundo, dos mais corriqueiros aos mais globais e abrangentes, têm início no egoísmo. Tudo que há de ruim ou errado começa porque em algum momento alguém pensou apenas em si mesmo.

Faço essa introdução para falar sobre algo particular dessa nossa comunidade de colecionadores. A relação que criamos entre as empresas (lojas, distribuidoras) e nós. Uma relação que muitas vezes esbarra na discussão ética. E como sempre, estou aqui para levantar a questão e gerar o debate, não para ditar regras. (Mesmo tendo minhas próprias impressões e convicções no assunto).

Diariamente alguém aqui enfrenta o famoso problema de atraso na entrega de suas compras. Quando o atraso ocorre por uma loja nacional, acho engraçado que as consequências não sejam tão drásticas. Quero dizer, se um produto comprado de uma loja daqui demora para chegar, sobram reclamações com a mesma, lamentação com os colegas e é isso. No mais, fica a espera da eventual entrega. Mas quando o atraso vem de lojas internacionais (notadamente da Amazon), o furor parece ser maior. O que não faz nenhum sentido para mim, já que há muito mais variáveis a serem consideradas numa compra internacional do que numa compra local. Temos muitos posts aqui no blog que tratam do assunto e descrevem de maneira detalhada todo o caminho a ser percorrido por uma compra internacional e tudo o que pode ocorrer com ela nesse trajeto. Sendo assim, chego a ficar realmente irritado quando leio alguém reclamando do atraso de 1 dia de uma compra feita na Amazon e já considerando pedir o reenvio do produto. Quem faz uma compra no exterior (aliás, quem faz qualquer coisa) deveria saber tudo que pode ocorrer nessa ação. É surpreendente ver quantas pessoas fazem esse tipo de compra aparentemente às cegas.

Reclamar é uma coisa, agir é outra. É lamentável que algumas pessoas reclamem com a Amazon (ou outra loja) antes do período que eles dão para que isso seja feito (mais de 60 dias após a data estimada). Pior ainda é quando a pessoa pede o reenvio, recebe esse e o pedido original e fica com os dois, como se nada tivesse acontecido. Poucas pragas são piores que a dos “malandros”. O correto, como a maioria aqui já deve ter feito, é avisar a loja e autorizar a cobrança duplicada. “Mas daí eu vou sair no prejuízo”. Não, se simplesmente revender o produto “extra” adquirido. E veja, não precisa nem revender com margem de lucro, já que é apenas para recuperar um gasto não previsto. Mesmo assim, se quiser, pode até colocar um lucro em cima e sair no fim das contas com um crédito. E mesmo que tudo isso não dê certo, que você não consiga revender pelo valor pago, ou ainda, que nem consiga revender, nada disso deveria estar acima da atitude correta a ser tomada.

Acredito que as pessoas que fazem isso provavelmente nem sabem que há muitas lojas no exterior que não entregam para o Brasil justamente por isso. Infelizmente, muitas vezes os culpados por atrasos e extravios são os nossos Correios e nossa Receita Federal. Diria até que eles são culpados na maioria esmagadora dos casos. Mas a verdade é que as lojas no exterior não têm culpa disso e nós acabamos sofrendo o efeito colateral. No entanto, um erro não deve justificar o outro. Não é porque os Correios ou a Receita nos prejudicaram que temos que prejudicar alguém. Isso é egoísmo. E acredito que já deixei claro o que penso a respeito.

Mas claro, muitas vezes a situação é inversa. As lojas e distribuidoras é que parecem não agir com ética conosco. Quem aqui nunca comprou algo pela internet por causa de uma imagem ilustrativa no site e recebeu em casa algo totalmente diferente do anunciado? Quem aqui nunca comprou algo por um preço e teve sua compra cancelada porque o preço, segundo a loja, estava errado? Quem aqui nunca comprou um filme e o recebeu pela metade? (Sim ,estou falando de mutilação de imagem, Blu-ray sem áudio HD e todos os males que nos assolam nesse mercado). Quem aqui não recebeu um produto avariado em que claramente o dano foi feito na loja, e não no transporte? Ao meu ver, a falta de ética com o consumidor por parte das lojas e distribuidoras ocorre com muito mais frequência que o inverso. Esses consumidores e essas lojas poderiam dar as mãos e ir pro espaço!

Agir de maneira correta sempre vale a pena, ao meu ver. É claro, não devemos fazer isso porque podemos ter alguma espécie de lucro, mas sim porque é o correto. Mas sei que a visão gamificada do mundo predomina cada vez mais. De qualquer maneira, para exemplificar, acredito que ambas as partes podem sair ganhando quando agem dentro da razão e da ética. Quem aqui não fez parte do caso da luva do Blu-ray de A Bela e a Fera? A maioria comprou o produto acreditando que viria com uma luva, já que era assim que aparecia em todas as lojas. As pessoas começaram a receber sem luva, as lojas mudaram a ilustração do produto e o carnaval se armou. Reclamar nossos direitos (com razão) sempre vale a pena. A comunidade se mobilizou e a Disney, agindo de maneira ética, se prontificou em retificar seu erro (pois todos estão sujeitos a cometê-los). Aliás, ela e as lojas não agiram de maneira ética quando inicialmente venderam um produto e entregaram outro. Mas creio que a conclusão é que vale nesse caso.

Tenho uma história particular que sempre gosto de compartilhar. Há alguns anos eu havia comprado Uma Nova Esperança e O Império Contra-Ataca em DVD, naquelas edições duplas que traziam os filmes originais, sem as alterações posteriores do George Lucas (mas com o aspecto incorreto de tela, damn it!). Sempre quis tê-las (e o lançamento do Blu-ray só vem para reforçar isso). Pois quando eu pude adquirir o último filme, O Retorno de Jedi, simplesmente não conseguia encontrá-lo. Fui em todas as grandes redes de loja em São Paulo, pesquisei em todas as lojas pela internet, e nada. Foi quando um atendente de uma Saraiva me disse que eles haviam recolhido todas as peças das lojas. Os filmes agora só estariam disponíveis com a lata que trazia os três. Caramba, que absurdo! E como ficavam aqueles como eu, que estavam comprando as edições avulsas? Resolvi então escrever para a Fox narrando o ocorrido. E algumas semanas depois recebo em minha casa, antes de receber qualquer resposta do e-mail, o DVD de O Retorno de Jedi, enviado por eles. E realmente não sei se fui motivo para isso, mas algumas semanas depois voltei a ver as edições avulsas nas lojas.

E isso estará sermpre marcado para mim, mesmo que a Fox cometa seus erros, que a Disney cometa os seus ou que qualquer uma o faça (e farão). Assim como os erros também nos marcam. E isso também vale para os consumidores. Tenho respeito por quem conta que pediu a cobrança duplicada de um produto da Amazon e passo a enxergar com outros olhos aqueles que dão uma de “malandro”.

Somos definidos por nossas ações nesse mundo. E as que mais nos definem são justamente essas, as corriqueiras, as que provavelmente apenas nós sabemos que ocorreu. Alguns trocados realmente valem a nossa integridade ou a de uma empresa? Particularmente, acredito que não. E sei que a maioria também pensa assim, felizmente. Nem tudo está perdido.

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