Coluna do Fonseca: Moratória!

82
1535

Halley's Comet 1910A moratória do Halley é bem maior!

Com o recente anúncio sobre a moratória que a Warner irá impor aos filmes da série Harry Potter, o debate sobre a prática se aqueceu novamente. Já é bem sabido entre os colecionadores que a Disney pratica isso desde o início do home video. E apesar de a maioria do público considerar essa prática ruim, há sempre mais de um lado na história. Enquanto a palavra “moratória” causa revolta ou medo entre os colecionadores, acredito que deve causar imensa alegria às distribuidoras e estúdios. Senão, vejamos.

Parece-me muito simples de compreender os benefícios que a moratória de um produto pode trazer para uma companhia. Como já disse, a Disney é a empresa mais célebre pela sua prática. Na época do VHS, cujo boom coincidiu com o retorno dos grandes clássicos do estúdio, a prática de lançamento dos filmes para o mercado caseiro era muito diferente do que temos hoje em dia, com janelas que chegam a ser de apenas 2 ou 3 meses entre a exibição de um filme nos cinemas e seu lançamento em DVD e Blu-ray. A frase “somente nos cinemas” ainda fazia sentido naquela época. Após ser lançado nos cinemas, os clássicos da Disney só chegavam em VHS após 1 ano do lançamento do filme, pelo menos. Em muitos casos, até mais. O que isso significava? Em primeiro lugar, que assistir ao filme nos cinemas tornava-se muito mais fundamental, já que se não fosse assim, teria que esperar mais de um ano para assisti-lo. Aliás, essa é uma briga que está em pauta até hoje, pois os donos das salas de cinema e todos aqueles que lucram com as bilheterias, reclamam (com razão) que as curtas janelas entre a exibição nos cinemas e o lançamento em home video prejudicam muito as bilheterias. Novamente, não estou dizendo o que é “certo” ou “errado”, apenas apontando os fatos.

A Bela e a Fera em VHS, DVD e Blu-ray (frente)

Muito bem, com essa janela bem grande entre os lançamentos, não apenas a exibição dos filmes nos cinemas ficava mais valorizada. O seu posterior lançamento em VHS também. Afinal de contas, era um filme que quem perdeu no cinema, teve que esperar um bocado para poder assistir. A Disney foi pioneira também na valorização dos seus filmes como material colecionável. Trazendo seus clássicos numa embalagem amarela e VHS verde, ela os destacava das demais fitas e elevava o seu valor como item colecionável. Além disso, apesar das limitações do VHS, eles sempre colocavam após os créditos algum tipo de extra, como os clipes das músicas tema dos filmes ou até mesmo um making of, como fizeram em Hércules.

E mais uma vez, outra frase que fazia sentido: “À venda por tempo limitado”. E essa prática se mantém até hoje para diversos títulos do estúdio, os Platinum e/ou Diamante. Quem não comprasse o filme durante aquela janela, só teria como fazê-lo anos depois. Anos. E percebam que o comércio paralelo desses itens através de revendedores não era tão difundido nessa época. Portanto, tanto a exibição dos filmes no cinema como a sua venda em VHS eram extremamente valorizados.

Ainda pensando em quem vende, a moratória parece um ótimo negócio. Você valoriza o seu produto imensamente. Não é à toa que a Disney, durante décadas, jamais vendeu a exibição de seus filmes para a televisão, algo que começou a mudar há alguns anos e que eu, particularmente, acho um tiro no pé. Mas pode ser só eu. De qualquer maneira, se um título é vendido por tempo limitado, para começar, a queda de preço não se faz necessária. Afinal, quem quiser mesmo, terá que pagar. E se esperar o preço cair, corre o risco de ficar sem. O consumidor vai argumentar: “Mas eles não poderiam ganhar mais vendendo os filmes sempre, durante todos esses anos?”. Vender muito, por preços mais altos, em um curto período ou vender “normalmente”, com preços mais baixos, durante longos períodos? O que dá mais lucro? A resposta me parece óbvia. Se a moratória não trouxesse vantagens financeiras a qualquer empresa que seja, ela não seria praticada.

Do lado do público, o drama é outro. Como bem apontou meu colega Bruno no texto sobre a moratória de Harry Potter, é triste querer ter um filme na coleção e não poder, seja porque você nem colecionava/tinha idade na época em que saiu, seja simplesmente porque não conseguiu comprar no período em que esteve disponível. Por outro lado, quem comprou, fica numa alegria sem fim e certamente sente orgulho por ter o item na coleção. Então mesmo entre os consumidores, acho que há uma divisão de opinião.

A moratória serve para “prolongar a tensão e o prazer”, no que diz respeito ao consumidor. A exclusividade está intrinsicamente ligada ao colecionismo. Possuir itens raros move grande parte dessa indústria. A moratória não limita com um ponto final a possibilidade de se possuir um filme. Mas limita, por exemplo, quando e como você poderá tê-lo. É Céu e Inferno para quem coleciona.

Para muitos de nós que querem simplesmente ter o filme em suas coleções, perder a janela de disponibilidade de um item é realmente uma tristeza. Quando o que importa é apenas o filme, o ideal seria que sempre tivéssemos os títulos a nossa disposição. Mas se falarmos do colecionismo, onde não apenas o filme é importante, mas sua apresentação e conteúdo, a moratória traz alegrias (para quem compra, claro). Para as empresas, parece-me muito claro quais são as vantagens dessa preservação da obra. Porque não é apenas o filme em si que elas preservam e valorizam com isso. Nos casos da Disney e da Warner, com Harry Potter, é todo um universo a ser preservado e cultivado.

É certo que há muita coisa que não compramos porque ou estamos sem dinheiro ou estamos esperando uma queda de preço ou, possivelmente, as duas coisas. Mas é curioso que com o anúncio de moratória ou mesmo na venda de itens limitados, muitos de nós conseguem dar um jeito de efetuar a compra (que o diga o Castelo do Harry Potter…).

E vocês, o que acham?

[ad#amz-anima1]