Coluna do Fonseca: O futuro está no streaming

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Duck Tales: nunca lançado em DVD no Brasil, tem na Netflix com a dublagem clássica.


O ano de 2011 foi ótimo para o Blu-ray. Como não poderia deixar de ocorrer, por ser um formato ainda em expansão, os números de venda e adesão cresceram muito em relação aos anos anteriores. Enquanto isso, o DVD só vê os seus números caindo, o que também é totalmente justificável, já que está se tornando uma tecnologia obsoleta. Aliás, por mais que alguns saudosistas queiram ir contra, não tem jeito. Quase tudo que diz respeito à tecnologia acaba evoluindo ou sendo substituído por algo mais eficiente. No nosso caso específico, não acredito que ninguém deva tomar partido de DVDs ou Blu-rays. Quem coleciona filmes e séries quer apenas ter os seus títulos favoritos com a melhor qualidade possível. Tivemos o VHS (terrível qualidade!), o DVD e agora o Blu-ray. Dado o alcance e sucesso do DVD, durante tantos anos, é óbvio que uma substituição imediata pelo Blu-ray não ocorrerá da noite para o dia. E nem se espera que as pessoas se livrem de todos os títulos que possuem em DVD. Mas como enquetes realizadas aqui mesmo no BJC mostram, essa balança já está mudando.

Agora, temos que considerar também que esse “nosso mundo” é distinto da maioria do grande público. Para começar, pessoas que colecionam filmes já são minoria dentro da população. E apesar de não possuir dados, creio que cada um aqui, pela sua experiência, deve ter noção de que somos poucos, muito poucos. Mas temos um mercado voltado e dedicado a nós. Mesmo assim, a grande maioria da população consome filmes e séries de maneira casual: através da TV, do cinema, da pirataria e de downloads (para mim, são coisas diferentes). No último ano cresceram muito também, em todo o mundo, os serviços de VOD, Video on Demand, ou “vídeo sob demanda”. SKY, NET, Netflix, Terra, TeleCine, NetMovies, uma série de empresas que estão apostando na transmissão direta de conteúdo via internet. Para nós, colecionadores, a ideia de que esse tipo de serviço possa substituir a mídia física é ridícula e absurda. Afinal, sabemos que com a tecnologia de internet atual (mesmo na Coreia do Sul), um streaming de vídeo não tem como possuir a qualidade de áudio e vídeo apresentados por um Blu-ray, por exemplo. Para cinéfilos e colecionadores, a qualidade é fundamental. Porém, fazendo o papel de advogado do diabo, não tenho como não constatar que o streaming é o futuro do entretenimento caseiro. E é um futuro próximo.

A facilidade que esse tipo de serviço apresenta para o grande público é imensa e de difícil concorrência. As locadoras, já sabemos e testemunhamos há um bom tempo, têm os seus dias contados. A mídia física, para esse público, ganha uma sobrevida na forma dos serviços de entrega. Paga-se uma mensalidade e ganha-se o direito a um grande (ou indeterminado) número de locações durante o mês. Tenho amigos que aderiram ao serviço e estão muito satisfeitos. Possuindo um grande catálogo e levando comodidade aos clientes, é realmente um serviço que pode durar. Tanto que, nos Estados Unidos no ano passado, quando a Netflix quis separar o serviço de aluguel de filmes em mídia física do serviço de streaming, provocou a revolta dos clientes e teve que voltar atrás nos seus planos.

Há bastante tempo não vou a uma locadora. E eu era daqueles que alugavam 20 filmes em um feriado prolongado e que não ficava uma semana sem alugar algum título. Eu gosto muito da ideia e possibilidade de se assistir a todos os filmes, sem que para isso eu tenha que comprar todos. Na verdade, essa seria uma tarefa impossível, mesmo para o mais compulsivo e abastado dos colecionadores. Nos últimos meses, cheguei mesmo a comprar diversos filmes que nunca tinha visto. Fui conferi-los pela primeira vez em casa. Mas, infelizmente, não é possível manter essa prática com todos os filmes que quero assistir. Da mesma maneira, locadoras realmente me desanimam demais hoje em dia, com seus acervos escassos e seus preços abusivos (especialmente nas capitais). Então, o que fazer para continuar assistindo à mesma quantidade de filmes que eu assistia nos tempos áureos de locadora? A resposta, para a maioria, certamente estará na internet.

Antes de prosseguir, quero dizer que desconsidero totalmente de todo esse universo as pessoas que compram filmes piratas. Porque, apesar da questão financeira, há também uma questão cultural e social aqui. Há aqueles que compram filmes piratas simplesmente porque é a maneira que conhecem para se ter acesso a esse tipo de coisa. Para essas, uma promoção de um filme por R$19,90, não é uma promoção. Porque ela paga R$5 por um filme ou R$10 por três. Sua realidade financeira é outra e eu não espero que ela altere a sua renda por conta disso. E nem irei julgá-la por isso, pois é uma questão muito mais complexa do que alguns ousam crer. Mas há também aqueles que possuem condições financeiras e mesmo assim optam por comprar filmes piratas. Bom, não vejo como mudar a mentalidade desses, então os desconsidero para os fins dessa discussão.

Dito isso, quem não consegue assistir a tudo que quer em DVD, Blu-ray, cinema ou televisão, acaba recorrendo à internet. Conheço muitas pessoas que atualmente só assistem a filmes baixados pela rede. E muitas contam isso com bastante orgulho, “tenho meu HD externo, baixo tudo em ‘alta definição’”. (Acho particularmente triste ouvir isso de pessoas que, a princípio, amam o Cinema. Mas enfim…). Não quero generalizar, mas se tem o “HD externo”, se tem internet com alta velocidade, dinheiro não deve ser o maior problema dessas pessoas. Quem só baixa filmes dessa maneira, está “dando uma de esperto”, esse abominável mal enraizado na cultura brasileira (não sou vivente de outra cultura, não estou fazendo comparações). E esses também, muito provavelmente, não gastariam com um serviço de vídeo sob demanda. Mesmo assim, o número de adeptos desse tipo de serviço cresceu muito no ano passado. E aqui no Brasil, especificamente, com a chegada da Netflix e a percepção de outras empresas de que esse é o futuro do home video, o mercado e as possibilidades crescem a cada dia.

Eu fiz a assinatura da Netflix na semana em que chegou aqui no Brasil, em setembro. E devo dizer que estou muito satisfeito com o serviço. Há muitas pessoas torcendo o nariz e reclamando do acervo, por exemplo. Bom, ele cresce a cada semana e tem que crescer se a empresa quiser continuar tendo clientes. Eu só sei que por uma mensalidade de R$15, se eu assistir a dois ou três filmes por mês no sistema, já terá valido o investimento. E, no meu caso, assisti muito mais que isso. Um exemplo que gosto de dar é a série Castle. Ela não está disponível em DVD aqui no Brasil e se está na TV a cabo, não possuo o canal. A Netflix possui as três primeiras temporadas completas. Apesar de assistir minhas séries praticamente todas via download (parecido com a maioria das pessoas, acredito), eu gostaria muito de poder vê-las em qualidade superior. Não, eu não baixo séries em HD. Minhas fontes e conexão não me permitem esperar tantas horas para um download. Então eu fiquei muito feliz quando pude assistir a Castle em HD. Especialmente, porque essa série não foi lançada em Blu-ray nem nos Estados Unidos. Nem o DVD me proporcionaria a qualidade de imagem que pude ter com o streaming.

Um medo que eu tinha era sobre essa questão da qualidade HD, já que minha velocidade de internet (5 MB) não é mais o ideal para uma série de coisas. Temia que o vídeo ficasse travando, carregando ou simplesmente não ficasse com a melhor qualidade. Mas o que acontece com a Netflix, pelo menos em casa, é que após alguns segundos de carregamento, o vídeo começa com uma qualidade ruim e depois de 1 ou 2 minutos, no máximo, a imagem fica em HD.

A Netflix, especificamente, está com alguns problemas financeiros nos Estados Unidos e não sei qual é o futuro da empresa, ao certo. Mas como eu disse, há muitas outras despontando em todo o mundo (nos EUA, principal mercado, o Hulu tem grande força). Além disso, há serviços como o UltraViolet, que já começam a vir nos Blu-rays e que contam com investimento e apoio de grandes estúdios.

O que quero apontar e levantar para discussão é que uma coisa não exclui a outra. O fato de eu assinar um serviço de vídeo sob demanda não fará com que eu deixe de colecionar filmes. Até porque, colecionar é algo físico. Já escrevi sobre isso aqui e continuo acreditando que a mídia física perdurará por muito, muito tempo. E enquanto isso ocorrer, nós colecionadores sempre teremos como abastecer nossa paixão. Aliás, quanto mais especializado se tornar esse público, melhor será para quem coleciona. Com um público mais exigente, as produtoras terão que elevar os seus padrões. E, de certa maneira, isso já começa a ocorrer. Basta olhar para o nosso próprio mercado, que nos últimos dois anos parece finalmente ter acordado para os colecionadores. Que, mesmo sendo poucos, gastam por muitos.

Como eu disse antes, se eu realmente quero a melhor qualidade de áudio e vídeo, não é no streaming que a encontrarei e sim no Blu-ray. Formato, aliás, que deve durar muito tempo, já que formatos e televisores/projetores com mais definição sendo apresentados esse ano na CES não fazem muito sentido para a maioria dos consumidores. A relação distância da tela/tamanho dessa, na maioria das casas, torna inútil uma resolução maior do que a de 1920 x 1080 pixels. Não é à toa que todos os grandes estúdios de Hollywood estão apoiando e investindo tanto no Blu-ray. Ninguém faz um investimento desses se não for visando um bom período de tempo.

Por isso, ninguém precisa temer o streaming como se fosse o fim da mídia física. Ao menos não para nós. Mas, para o grande público, eu realmente acredito que esse seja um futuro que chegará muito em breve.

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