Filmes com 48 fps em Blu-ray: é possível?

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Desde que foi anunciada, a decisão do diretor Peter Jackson de filmar a adaptação cinematográfica do livro O Hobbit utilizando o recurso inédito de 48 quadros por segundo (ao invés dos tradicionais 24) dividiu opiniões. Se alguns críticos afirmaram que esta poderia ser uma revolução semelhante à introdução do som, das cores ou do formato widescreen no cinema, outros questionaram esta decisão.

Neste artigo, não entraremos na discussão de quem está certo ou errado; entretanto, com o anúncio do lançamento do primeiro filme da trilogia em Blu-ray, surgiu a seguinte questão: seria possível manter o formato de 48 quadros por segundo em Blu-ray?

A fim de descobrir a resposta para esta pergunta, analisaremos alguns aspectos técnicos envolvidos no processo de transferência do conteúdo em película para vídeo digital, além de verificarmos se as limitações da mídia permitiriam o armazenamento do conteúdo em alto frame rate (HFR).

Filme x Vídeo

Se em filme são usados 24 quadros por segundo para exibir as imagens, nos padrões de vídeo essas taxas são outras. Em PAL, são 25 quadros por segundo, enquanto em NTSC são 30 quadros por segundo (mais precisamente, 29,97). Para se fazer a telecinagem, que é a transferência do conteúdo em filme para um formato de vídeo, é necessário ajustar a diferença entre o frame rate dos dois formatos. Isto é feito através de um processo chamado pulldown.

Tanto o PAL quanto o NTSC são formatos de vídeo entrelaçado; ou seja, para gerar um quadro de vídeo são utilizados 2 campos: um com as linhas pares, outro com as linhas ímpares. Na transmissão, cada campo é exibido alternadamente em uma taxa que é o dobro da taxa de quadros por segundo (em PAL, são 50 campos por segundo; em NTSC, 60). Com essa informação em mente, conseguiremos entender como é feito o pulldown.

No caso do PAL, o pulldown utilizado é o 2:2. Isso significa que o primeiro quadro de filme é escaneado de forma a gerar 2 campos de vídeo (um com as linhas ímpares, outro com as pares); o segundo quadro de filme também gera 2 campos de vídeo e assim sucessivamente. Podemos notar que o conteúdo dos quadros de vídeo obtidos não sofrem alteração se comparados aos quadros de filme. Contudo, é aplicada uma aceleração na película para cobrir a diferença de 1 quadro por segundo entre filme e vídeo, a qual interfere no resultado final.

2:2 pulldown (fonte)

Em NTSC, se utiliza o pulldown 2:3. O processo é o seguinte: o primeiro quadro de filme é convertido em 2 campos (um com as linhas ímpares, outro com as linhas pares); no segundo quadro de filme, são utilizados 3 campos (linhas ímpares, pares e ímpares novamente). O processo se repete neste passo de 2 campos/3 campos para cada quadro de filme.  Ao exibirmos esses quadros na taxa de 30 quadros por segundo, a interpolação entre os campos gera uma imagem com fluidez similar à obtida originalmente em filme.

2:3 pulldown (fonte)

O mesmo processo pode ser aplicado na telecinagem de filmes com taxas diferentes de 24 quadros por segundo; por exemplo, em 8 mm (que possuem 16 ou 18 fps) ou filmes mudos em 35 mm (com 16, 12 ou até menos quadros por segundo), utilizando outras razões de pulldown.

Já podemos perceber que o principal problema causado por esta técnica é que não conseguimos obter em vídeo o mesmo resultado que tínhamos em filme: em PAL, temos a aceleração; em NTSC, a interpolação de campos pode causar um tremor na imagem conhecido como judder.

Exemplo de judder (fonte)

Alta definição em 24 quadros

Para solucionar este problema, os padrões de alta definição estipularam que o conteúdo de vídeo em HD utilizaria a mesma taxa do cinema: 24 quadros por segundo (mais precisamente, 23,976). Assim, se resolveriam vários problemas, tais como a aceleração e o judder causados pelo processo de telecinagem, além acabar com a necessidade do entrelaçamento na geração dos quadros de vídeo (cada quadro de filme seria transposto diretamente para um quadro de vídeo progressivo, com todas as linhas exibidas ao mesmo tempo).

Dependendo do equipamento utilizado, ainda pode ser necessário um pulldown do player ou da TV para adequar os 24 quadros por segundo à taxa de refresh do monitor utilizado; mesmo assim, o conteúdo de um Blu-ray em 1080p/24 oferece um resultado final bem mais fiel à fonte do que a que se obtinha anteriormente.

E com 48 quadros por segundo?

Analisando as especificações atuais do formato, podemos perceber que o padrão Blu-ray não foi planejado para contemplar uma fonte em 48 quadros por segundo. Basta observarmos o quadro abaixo, com as resoluções e taxas possíveis:

Resolução

Quadros por segundo

Modo

1920×1080

29,97 e 25

entrelaçado

1920×1080

23,976

progressivo

1440×1080

29,97 e 25

entrelaçado

1440×1080

23,976

progressivo

1280×720

59,94, 50 e 23,976

progressivo

720×480

29,97

entrelaçado

720×576

25

entrelaçado

Pode-se concluir que, por conta das limitações do formato, é impossível transferir uma fonte em 48 quadros por segundo para Blu-ray em 1080p. Entretanto, se reduzirmos a resolução para 720p e aplicarmos um pulldown na transferência, seria tecnicamente possível armazenar filmes com 48 fps e atingir um resultado similar ao obtido no cinema dentro das especificações atuais do padrão BD-ROM.

E em 3D?

O padrão Blu-ray 3D é mais restrito no que tange resolução, modo e taxa de quadros por segundo: em 1920×1080, são permitidos apenas apenas 24 (mais precisamente, 23,976) quadros por segundo; em 1280×720, 60 (59,94) e 50 quadros por segundo, ambas as resoluções apenas em modo progressivo. Teoricamente, também seria possível armazenar O Hobbit em um Blu-ray 3D diminuindo-se a resolução para 720p e usando pulldown na transferência. Entretanto, é bem provável que este processo interfira no resultado do 3-D, justamente por conta da mudança da taxa de quadros por segundo.

Mas, e na prática?

Na prática, acho improvável a Warner lançar uma versão HFR de O Hobbit em Blu-ray com a tecnologia atual. Primeiro, por uma questão mercadológica. Os 1080p são mais fortes no mercado do que os 48 fps; lançar uma versão do filme em 720p parecerá, aos olhos do consumidor eventual, um retrocesso.

Seria mais sensato aguardar por uma atualização do padrão Blu-ray que inclua suporte aos novos frame rates e às mídias multicamada (uma vez que mais quadros por segundo obrigatoriamente exigem mais espaço em disco), ao invés de fazer um lançamento prematuro.

Além disso, o HFR ainda é uma novidade que não foi completamente absorvida pelo público. Talvez quando outros cineastas embarcarem nessa onda (James Cameron já anunciou que as sequências de Avatar serão filmadas em 60 quadros por segundo), a indústria se sinta mais segura em investir em títulos com 48 e 60 quadros por segundo também em home video.

  • Para ilustrar: vídeo do crítico de cinema Pablo Villaça explicando a importância dos 48 quadros por segundo para a indústria do cinema:

http://www.youtube.com/watch?v=xHjiEuKeBls
Canal pablovillaca

O Hobbit em Blu-ray nas Amazons: