Coluna do Fonseca – O futuro que queremos

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Era uma vez a Disney que fazia gift sets de verdade…

Há algumas semanas, o editor-chefe do site The Digital Bits, Bill Hunt, fez algumas considerações e reflexões interessantes. A primeira delas é acerca do 4K (3840x2160p) e dos recentes lançamentos anunciados pela Sony, que noticiamos aqui.

Meu amigo Alexandre Prestes deixou bem claro em seu texto: “o conteúdo desses títulos não está em 4K, mas no bom e velho 1080p”. Eu já havia tocado nesse assunto na minha coluna anterior. David Bott, do AVS Forum, fez inclusive um questionamento muito válido a respeito dessa nomenclatura 4K e 8K. Se o padrão até hoje tem sido 480p, 720p, 1080p, por que não agora 2160p? Por que “4K”? Obviamente, o marketing pode explicar isso. Voltando ao texto de Hunt, ele também levanta outra excelente questão: se a única diferença desses títulos é que foram masterizados a partir de um material em 4K, ou seja, houve uma melhor masterização, por que já não fazer isso com todos os Blu-rays? Não é coincidência que a Sony seja a primeira a lançar títulos dessa “procedência”. Foi ela também quem lançou os DVDs Superbit há alguns anos. Sim, esses BDs 4K atualmente anunciados nada mais são do que “Blu-rays Superbit” (by Jotacê®).

Já deixei registrado em comentários no BJC que uma boa masterização nos Blu-rays faz toda a diferença. Disse e repito: a imagem mais incrível que já vi numa TV ou Blu-ray foi de Monstros S.A. numa TV de 64 polegadas numa loja. 64 polegadas! Hão de concordar que não é a sala de todo mundo que comporta uma TV desse tamanho. E se uma TV desse tamanho é capaz de render imagens incríveis em Blu-ray como as que eu vi, qual a real validade de “mais definição” em TVs desse porte para baixo. Se considerarmos que as TVs de 40″/42″ são as mais populares hoje em dia, certamente esse ganho de definição não será notado. Apenas em TVs muito maiores ou projeções isso fará diferença. Isso tudo, claro, se estivermos falando de 4K de verdade, não da versão Superbit-requentada-malandrex.

A segunda questão que Bill Hunt levanta em seu texto mostra que, tanto cá como lá, colecionadores enfrentam problemas muito parecidos. Como bem disse meu amigo Jotacê, parece até que ele está falando do Brasil. Hunt levanta a questão de que cada vez mais, parece que quem toma as decisões em relação ao home video e aos itens colecionáveis são pessoas que não têm a menor ideia da área em que trabalham, não têm o menor conhecimento desse mercado e desse público. Tomam decisões que podem parecer muito boas de um ponto de vista estritamente financeiro, mas que a longo prazo (e já estamos no meio desse prazo) podem minar completamente o ato de colecionar e perder, se não todo, grande parte desses consumidores.

Novamente, não é coincidência. Ele começa essa reflexão por causa da Disney! Sim, pois é! Porque a Disney anunciou o lançamento nos EUA de Oz: Mágico e Poderoso sem um combo que traga o Blu-ray 3D e o 2D no mesmo pacote. O pior, ainda estão cobrando o mesmo valor no BD 3D que cobravam quando vinha com o BD 2D. Oferecem menos pelo mesmo preço. Conheço muitas pessoas que optam pelo combo 3D+2D mesmo sem terem televisores 3D, seja pela embalagem que costuma ser mais caprichada, seja porque pretendem adquirir equipamento 3D no futuro. Pois parece que, a partir de agora, esse tipo de escolha não poderá mais ser feita. Se virar regra (e tem tudo pra virar, aos menos na Disney dos EUA), duvido que quem não tem equipamento 3D vá comprar o mesmo filme duas vezes, ainda mais pelos preços praticados. O 3D continua sendo uma fatia bem pequena do mercado, tentando ganhar espaço. A falta de visão desses executivos também me assusta.

E chegamos então a um ponto que vejo sendo debatido há um bom tempo. A indústria do home video, em grande parte do mundo, parece estar regredindo. Luva/sobrecapa já foi regra para qualquer edição que pretendesse se chamar de especial. Hoje em dia, essas edições têm cara de produto pirata. A própria Disney, outrora símbolo de qualidade e referência no mercado, hoje em dia é decepção atrás de decepção. E daí não estou falando apenas do nosso mercado, mas também do americano. “Edições Diamante” com poucos e fracos extras, artes de capa de gosto muito duvidoso, descaso com títulos amados pelo público, a lista é longa.

Não acho que o cenário seja irreversível ou que essa falta de visão seja a regra. Há muitas e boas exceções. Há países e lojas investindo cada vez mais em SteelBooks (enquanto por aqui, não há um empresário do ramo com visão); onde há muitos SteelBooks, produtos especiais são algo muito maior: caixas, brindes, discos de extras, uma série de coisas que agregam valor ao produto e que têm um mercado fiel e consolidado. Edições especiais e exclusivas somem das lojas e são procuradas em todo o mundo. Até mesmo eu, que não gosto das nossas latas de biscoito (sim, estou provocando), mandei seis latas dos Vingadores para colegas colecionadores no exterior.

Já discuti inúmeras vezes aqui o quanto o público colecionador deveria ser valorizado por todas as empresas. É um público que quer comprar. Tudo que ele precisa é qualidade e preço justo. Sim, há aqueles que não se importam com essas duas coisas, mas acho que esses atrapalham nossa paixão tanto quanto os empresários incompetentes. Talvez até mais. Se a incompetência desses executivos está fora de nosso alcance, então façamos o que podemos. Comprar o que é bom e com preço justo, deixar na prateleira o que não é bom e não tem preço justo. Reclamar muito de lançamentos ruins, como incentivamos aqui no BJC. Mas elogiar muito os bons lançamentos. Há um título não lançado por aqui que queremos muito? Ora, vamos nos organizar para mostrar o quanto queremos. Alguém há de ouvir. Isso já foi feito antes e acredito que pode ser feito mais vezes, só depende da nossa dedicação.

Pode parecer absurdo termos que ir atrás de algo que já deveria estar sendo oferecido a nós (e é um pouco, sim), mas quando a situação é essa, temos que agir. Quem sabe conseguindo vitórias em algo de menor escala como nossa paixão colecionística, talvez nos empolguemos e nos empenhemos mais em causas de maior escala?

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