Lojista se manifesta a respeito da “morte da mídia física”

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A belíssima coleção de vinis com a trilha de O Senhor dos Anéis. Na Amazon.

Em um post no Facebook, um dos sócios da loja Die Hard Records (especializada em CDs/LPs musicais da Galeria do Rock em São Paulo), Fausto Mucin, faz um desabafo sobre toda essa história de “morte da mídia física”. O texto trata especificamente do ramo musical, mas é facilmente transportável para o comércio de filmes ou de livros. Existe uma cultura do caos que parece sempre querer empurrar alguma mídia para a morte. No momento em que os serviços de assinatura digital estão cada vez mais populares, sempre tem alguém que quer decretar o fim de alguma coisa (como o de livros impressos – que nos EUA continuam vendendo muito, ao contrário dos livros digitais).

Enfim, vale a leitura de uma pessoa que tem a vivência concreta do mercado musical. Nas últimas semanas muito tem se falado da crise da Saraiva e da Livraria Cultura. O que talvez esteja faltando por parte das lojas neste momento de grande transição (que não nego que esteja acontecendo) é focar no público fiel, aficcionado e colecionador. O sucesso do SteelBook no nosso país é emblemático desse foco: quando o produto é diferenciado e consegue atender a expectativa de um nicho específico, não tem erro.

Abaixo o texto do Fausto, que gentilmente autorizou a publicação aqui no BJC:

 

A REALIDADE DA MÍDIA FÍSICA, AGORA NO CONTEXTO DA GALERIA DO ROCK

É uma sacanagem o que a mídia e os desavisados da imprensa oficial ou não estão tentando fazer com a mídia física, alardeando que ela está no fim. Às vezes os próprios envolvidos, músicos, inclusive. Não sei se por irresponsabilidade querendo ver o circo pegar fogo, talvez por vingança maldosa tendo a pessoa se desfeito de sua coleção achando que o CD fosse acabar e não acabou, como (fizemos) com os LPs no passado, talvez por que tenha parado de comprar e quer que o mundo todo pare para que não se sinta sozinho, talvez porque tenha apostado no fim da mídia física mas, vendo que isso não está acontecendo ainda insiste pra não se sair mal, mas, muito provavelmente por pura desinformação, e, talvez ainda, pra ter um pouco da atenção que esse assunto ainda atrai.

Quem quer o fim da mídia física são as empresas que lucram com isso, as plataformas de streaming ou do quase finado MP3 (Quem diria, o vinil revigorado e o MP3 agonizando). Quem lucra com essa desinformação sobre a mídia física é a imprensa, nanica, especializada ou não e blogueiros generalizados, de novo, porque esse assunto ainda chama a atenção. Mas chama a atenção de quem? Se a pessoa já não compra CDs, pela lógica, o interesse sobre eles deveria não existir também, desconsiderando a morbidez, claro. Devo concluir que isso chama a atenção de quem compra!

Obviamente que a indústria diminuiu, afinal, quem PRECISAVA comprar o CD não precisa mais, sem contar que a indústria fonográfica ficou desnorteada, burra e surda; burra porque passou seu principal produto pras empresas de informática, que nada tem a ver com música, surda porque simplesmente não (re)lança seus clássicos ou mesmo alguns novos, principalmente (mas não só) aqui no Brasil, e (ainda) desnorteada pois ganhava milhões e esbanjava arrogância, e hoje a realidade é outra. A prova que a fórmula ainda funciona, e bem, são alguns poucos relançamentos clássicos rapidamente esgotados (Dio, Cream, etc…), aliás, se esgotaram bem mais rápido do que outros lançamentos de outros estilos os quais, pela (i)lógica deles, deveriam vender mais e mais rápido, mas não é o que acontece. As majors estão com funcionários de vendas no comando, o pessoal artístico já era faz tempo, ou seja, quem manjava mesmo do negócio foram os primeiros a serem demitidos. Estas são apenas minhas especulações sobre o encolhimento da indústria fonográfica, não sei se são esses motivos, mas o cheiro é forte…. A realidade é que encolheu e é assim que é, porém não acabou e não vai acabar tão cedo, apesar do chororô geral destas empresas, pelo menos não nas próximas décadas (guarde isso pra me mostrar depois, hehe).

O que eu digo é em razão da minha experiência diária tanto pessoal (compro discos frequentemente desde 1974) quanto profissional (vendo discos diariamente desde 1996). Estou cansado de dizer que a Die Hard só cresceu, hoje vejo que não estamos sozinhos, os pequenos selos brasileiros se proliferam por todo o país, sempre lançando bandas nacionais e bandas do mundo todo com uma regularidade invejável, inegável também o fortalecimento dos catálogos das de médio porte de nosso estilo como Shinigami e Hellion. Se o CD estivesse morrendo eles não estariam, por heroísmo e sem lucro, nesta velocidade vertiginosa de lançamentos que mal conseguimos assimilar. Os produtos importados também sempre estiveram entre nós, e desde quando comecei a comprar discos eram caros e raros, e continua assim, o preço sobre, o preço desce, às vezes tem, às vezes não, e nós aqui sempre procurando ter todos e sempre…

O mercado está se adaptando, quem tiver o tino brilhará, quem ficar chorando, dificilmente terá um destino diferente do que provoca esse choro.

Outro assunto mas quase o mesmo, em nosso microcosmo aqui, somos uma loja dentro da Galeria do Rock, só isso, poderíamos estar em qualquer outro lugar, estamos aqui pois em 1996 não tinha essa discussão, hoje a Galeria do Rock está sim, diferente, resultado da redefinição do nosso negócio, exposto acima. Não faria sentido a Galeria ter a mesma quantidade de lojas de CDs de dez anos atrás, prolifera-se por aqui o que dá lucro hoje, é o capitalismo, é o consumo, tem camisetas, acessórios, action figures, games… Mas esse não é o problema, o que, talvez, incomode é que nem tudo a ver com “rock”, inclusive pelo esforço culturalmente equivocado da administração do próprio condomínio há anos para descaracterizá-la. Lojas que ocuparam aqui ainda estão, a meu ver, no contexto. Tênis, roupas mais esportivas, camisetas de heróis de HQ… Não é o ideal, mas o que é mesmo o ideal, uma vez que 140 lojas de CDs já não é viável em nenhum lugar do planeta? E tudo isso tem a ver com o encolhimento do nosso negócio, não tem UM culpado, nem se trata de culpa. Menos pessoas compram CDs, portanto fabrica-se menos, logo, vende-se menos CDs. Mas os CDs continuam a ser fabricados, especialmente e na quantidade adequada, e sob as ordens da mais antiga lei do comércio, a de oferta e procura. Proporcionalmente e dentro de seus domínios, os livros estão passando por esta transformação, o cinema também, a imprensa então, nem se fala. Em poucas oportunidades converso civilizadamente com a administração da Galeria do Rock, sempre expondo minhas ideias (nunca ouvidas), eles sabem da nossa histórica discordância política e cultural, sempre deixo claro e público, agora por exemplo, às vezes até frequento as reuniões de condomínio (um saco), até conseguimos (eu e o mestre Calanca) que, veja o absurdo, quando a imprensa viesse DENTRO de nossos estabelecimentos, não fosse necessária a aprovação deles, sim, por absurdo que possa parecer, antes, quando se fosse fotografar ou nos entrevistar DENTRO DA LOJA tínhamos de pedir essa permissão. Mas a verdade tem de ser dita, toda vez que me posiciono ante as atitudes desta administração tenho de lembrar que nos anos 80 eu tinha medo de vir na Galeria, era degradada e perigosa, o processo de recuperação não foi nessa gestão porém muito se fez nela, de uma forma ou de outra, e não digo da divulgação, sempre equivocada, digo sobre as escadas rolantes funcionando, sobre os elevadores novos, sobre a iluminação, limpeza e, principalmente, segurança. Eu sei, não é mais que obrigação, etc, mas era obrigação antes e ninguém fez. Porém, mais do que falha, talvez destrambelhamento ou algo que nem imagino o que seja; não consultar quem entende do principal ramo da Galeria (não eu, mas os anciãos daqui, temos muitos ainda), que lhe deu fama e até o nome; não admitir nada que não seja “rock”; e não publicar declarações equivocadas (no mínimo) quando representando a Galeria pode se voltar não só contra esta administração como contra todos que aqui estamos. Alerta apenas.

Cada loja tem seu esquema, o nosso é esse, não é onde você vai encontrar os produtos mais baratos, mas é onde você vai encontra-los, sempre novos e originais, sempre com atendimento de quem gosta do que está fazendo, de quem COMPRA CDs também, por isso nem tocamos em assuntos que também rondam tudo o que eu disse mas não definem esta situação como a crise, e tudo o que de mais triste ela traz.

Música é arte, não confundamos acesso e posse, uma coisa nada tem a ver com a outra, quem compra quase sempre acessa, o contrário nem sempre é verdadeiro. Quem compra discos quer ter os discos (CDs e LPs), colecionando-os ou não, aliás, li estes dias uma definição de respeito: não nos intrometermos nas escolhas dos outros.

Enquanto eu comprar CDs, vou vende-los, por razões óbvias, e também porque Jim Morrison me disse que a música será sua única amiga até o fim.

Valeu a atenção!

Fausto

Mais um textão, e mais um post onde confundo o pessoal e o empresarial.

PS 1: Às vezes o texto está na primeira pessoa (eu), às vezes não pois meu irmão e sócio André Mesquita sempre está implícito quando falo, e, ainda, em nome da Die Hard, com 4 funcionários diretos e alguns tantos indiretos.

PS 2: A palavra “rock” está entre parêntesis pois a grande mídia manipula e confunde, veja o cast do Rock in Rio por exemplo.

PS 3: Quando digo “disco”, me refiro aos de vinil, era como os chamávamos, afinal é o formato, e também me refiro aos CDs, pois são discos também, a razão social da Die Hard é AFF Discos 🙂

  • VEJA TAMBÉM | Nosso vídeo mostrando gift set de Pink Floyd dos EUA

Link para as pré-vendas na Saraiva:

http://jotace.me/2u5A8v0

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