Proprietário de videolocadora faz desabafo sobre a decisão da Disney

Estabelecimentos também serão afetados pelo sumiço de DVDs e Blu-rays.

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A reação dos donos de videolocadoras ao saber que essa será a única Mulan
que eles terão em seu acervo.

Para quem acompanha o mercado de home vídeo, não é novidade que ainda existem locadoras ativas em todo o Brasil. Em grandes centros, cidades litorâneas e na periferia de muitas outras cidades, elas cumprem o papel de levar produções audiovisuais para quem não aderiu ao streaming ou para comunidades que simplesmente não tem conexão alguma. Manter uma locadora é uma atividade de resistência que tenta estabelecer uma equidade em relação ao acesso das pessoas aos filmes e séries.

Abandonadas pelos grandes estúdios, que não fornecem mais a janela de locação e nem material impresso para divulgação dos lançamentos, as videolocadoras acabaram por cair na mesma situação dos colecionadores. Precisam garimpar melhores preços, comprar seu acervo online e implorar por lançamentos em mídia física. E agora, estando no mesmo barco que a todos nós, as locadoras resistentes também vão sofrer muito sem os títulos da Disney.

Foi a partir desse sentimento de indignação que recebemos o texto abaixo, de um responsável por uma locadora. Julguei ser pertinente trazer aqui no BJC uma manifestação de uma pessoa com tanta experiência e que passou por quase tudo o que o nosso mercado já viveu. Ao final da mensagem, o autor faz uma afirmação que, coincidentemente ou não, já é marca registrada do BJC há mais de uma década.

Com a palavra o co-proprietário da Vídeo Paradiso, de Santos/SP, Marcelo Rosendo Datoguêa de 57 anos, prestes a completar nada mais nada menos que 29 anos de sua videolocadora.

Tem uma história que sempre me volta à cabeça, quando eu vejo esse tipo de coisa. Um amigo ex-proprietário de locadora daqui de Santos (chegou a ser representante também) sonhava em fazer da loja dele um vídeo clube, alugando somente para sócios pagadores de mensalidades. Ele adorava pegar a calculadora e fazer as multiplicações, por exemplo, uma mensalidade de 100 Reais (em valores de hoje), arrumando 1.000 clientes, 800 clientes dispostos a pagar todo mês, daria um faturamento de 100 mil, 80 mil Reais! Maravilha, eu também adoraria isso… Mas no princípio do mercado de vídeo isso foi tentado e acredito que outras experiências também foram feitas neste sentido. Só que não vingou! Porque as pessoas não queriam se vincular a uma só locadora (ou até mais algumas) e preferiam ficar à vontade, para consumirem locações de filmes quando quisessem, ou seja, nada de pagar por algo que eventualmente não consumiriam.

Então, fazendo uma analogia com os grandes estúdios, parece que todas sonham em ter uma plataforma digital com milhões de assinaturas. A concorrência entre elas é inevitável e boa. Mas qual vai ser o limite financeiro do consumidor de filmes e séries perante tanta fragmentação? Pela história citada, eu acredito que em alguns anos vão arrebentar a cara! Vejam bem, eles não querem só o VoD (Video on Demand), que depende da penetração popular que cada título pode ter, similar a cinema e venda de mídia física em vídeo. Com a assinatura eterna, eles imaginam uma entrada de dinheiro “garantida”, inclusive não dependendo muito da qualidade e quantidade de filmes produzidos. Isso é ganância, preguiça e falta de trato fino com a arte!

Essa decisão de acabar com a mídia física na América Latina é uma imbecilidade! Provavelmente é ideia de algum executivo “iluminado” da Disney internacional. Agora essa notícia só veio confirmar a falta de visão que eu achava ser exclusiva dos executivos de cinema e vídeo brasileiros. Parece que a boçalidade pegou como uma pandemia também os gringos.

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