RESENHA DO LEITOR | PIXOTE em Blu-ray pela Criterion!

Edição lançada ano passado tem a melhor transferência até hoje!

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por Pedro HB (originalmente postada no Grupo do BJC no Facebook)

NOTA DO JOTACÊ: a resenha técnica abaixo trata do filme PIXOTE em Blu-ray, lançado pela Criterion nos Estados Unidos em 29 de setembro de 2020 num box chamado Martin Scorsese’s World Cinema Project No. 3.


Eu já havia feito um review comparativo entre o DVD da edição nacional de 2009 de Pixote (mutilado em 4×3) com o DVD alemão de 2006 (pela primeira vez em 16×9). O link do post no Facebook está aqui. Pra quem não estiver a fim de ler o textão e quiser pular direto para os prints e vídeos, segue o link do Drive (não coloquei legendas nos prints identificando qual é do DVD e qual é do Blu-ray porque as diferenças são bem óbvias, mas é nessa ordem: DVD nacional ==> DVD alemão ==> Blu-ray americano).

Então, acho que não preciso citar o conteúdo de cada disco. O Blu-ray da Criterion também conta com dois reviews muito bons (em inglês), o do Blu-ray.com e do DVDBeaver. Esse último tem ainda o BD Info, então não será necessário detalhar a parte técnica aqui. Mas só pra constar: bitrate média de vídeo de 25Mbps, áudio LPCM 1.0 48kHz/24bit, legendas em inglês, espaço em disco ocupado de 25,52 GB aproximadamente. Como o filme divide espaço com outro no mesmo disco, então é de se esperar que cada um ocupe não mais do que isso.

O filme começa com um texto detalhando o processo de restauração. Segue aqui o texto, traduzido por este que vos fala:

“Restaurado pelo World Cinema Project da The Film Foundation e pela Cineteca di Bologna na L’Immagine Ritrovata em associação com a HB Filmes, Cinemateca Brasileira e JLC Facilitações Sonoras. Restauração financiada pela George Lucas Family Foundation.
Pixote foi restaurado usando o negativo original da câmera e um ‘internegativo’ de primeira geração preservados na Cinemateca Brasileira.
A fim de minimizar a presença geral de mofo, particularmente invasivos nas bobinas 3, 5 e 6, o negativo da câmera foi digitalizado em wet-gate com resolução de 4K. Frames ausentes em três cenas diferentes da bobina 3 foram substituídos usando o ‘internegativo’.
A trilha de áudio original em bobina magnética recém-redescoberta, também afetada por mofo, com a camada de óxido descascando da base, foi cuidadosamente reparada por Beto Ferraz, depois digitalizada e restaurada por José Luiz Sasso (ABC), mixador de regravação de Héctor Babenco em 1981.
A coloração final foi supervisionada pelo diretor de fotografia Rodolfo Sánchez (ABC) usando uma cópia de exibição 35mm de primeira geração como referência.”

Em resumo, agradeça o Seu George por ter financiado essa restauração. Qualquer ranço que tinha dele acabou agora.

Só explicando alguns termos: digitalização em wet-gate é quando a película é digitalizada dentro de uma solução líquida, ajudando a eliminar vários defeitos físicos da película como arranhões e sujeiras, o que facilita muito o posterior trabalho de restauração digital da imagem. Internegativo, se eu pesquisei certo, é uma cópia em negativo duas gerações abaixo do negativo original da câmera, que também é o negativo que vai gerar as cópias de exibição para os cinemas com a coloração final ajustada (esse processo é anterior à era digital, obviamente). O negativo original gera um “interpositivo”, que gera o “internegativo”, e dele geram-se as cópias de exibição para os cinemas. Então é assim: negativo original ==> interpositivo ==> internegativo ==> cópias de exibição para os cinemas com a coloração final ajustada. Se estiver errado, me corrijam.

Minhas impressões ao assistir essa restauração são de que, não importa quantas vezes você já assistiu antes, você estará assistindo pela primeira vez. É de arrepiar, simplesmente. Não sei se isso é uma coisa boa exatamente, porque as versões em home vídeo anteriores basicamente tiravam a essência do filme devido à qualidade inferior. Ou seja, eu tinha esquecido como esse filme é um tanto pesado, bem deprimente. E essa restauração realça ainda mais tudo isso.

Minha única ressalva dessa restauração é que ela está bastante escura. Pelas capturas, dá pra ver nas cenas noturnas o quão escura é a imagem. Mas se teve a supervisão do diretor de fotografia, então acho que é assim que tem que ser mesmo.


Agora uma coisa que não tenho ressalva nenhuma é a qualidade do áudio. Que diferença! Eu jamais imaginei que um filme brasileiro dessa época pudesse ter essa qualidade de som. É de cair o queixo! Com isso, a excelente trilha musical do John Neschling ganhou vida nova também. Na cena em que o Fumaça acende um baseado no dormitório e depois desce da beliche pra oferecer pro Pixote e ele acorda assustado, eu nem imaginava que tinha uma trilha musical de fundo nessa cena. Nas versões anteriores era inaudível praticamente. Aqui dá pra escutar com clareza.

E tem algo que me pegou de surpresa. Temos aqui um mini “Director’s Cut”. Isso mesmo! Temos duas cenas que não estavam presentes nas versões anteriores e que eu jamais imaginei que existiam. A primeira na verdade não é uma cena inédita, e sim um “acréscimo” de dialogo só. É a cena quando o Pixote acorda na enfermaria e vê o colega Fumaça todo arrebentado na cama ao lado. Nas versões anteriores, essa cena era silenciosa. Na edição da Criterion essa mesma cena tem um diálogo entre o Sapato e mais um colega. Não sei porque esse diálogo foi retirado das versões anteriores e não sei se estava presente no lançamento nos cinemas na época. Mas tá aqui, pela primeira vez! E outra cena que me pegou de surpresa foi a cena sem censura da tentativa de suicídio da Lilica. Eu nem imaginava que essa cena tinha sido cortada. Mas tá aqui, sendo exibida na íntegra pela primeira vez, sem cortes. Também não sei se foi cortada dos cinemas na época. Bom, essas são as “alterações” que percebi. Coloquei na pasta do Drive os vídeos comparando essas duas cenas que citei, usando o DVD nacional, o DVD alemão e o Blu-ray americano.

Tenho algumas reservas quanto à qualidade da compressão, mas não é nada grave. Conforme falei acima, essas coleções World Cinema Project da Criterion espremem dois filmes num disco só. Temos 25,52 GB de espaço em disco pro Pixote, isso só pro filme. Pra um filme de mais de 2 horas, é pouco. Segundo o review do DVDBeaver, Pixote é o que tem a imagem “menos problemática” dos filmes dessa edição (palavras do cara que fez o review). E a Criterion, por melhor fama que tenha, não é exatamente bem-quista quando se trata da qualidade da compressão de vídeo, mesmo quando é um filme por disco (que dirá dois filmes por disco então). Nos fóruns do blu-ray.com, onde a galera leva muito a sério essa questão, a Criterion não é muito elogiada nessa parte. Nesses fóruns o assunto é tratado com bastante seriedade. Tanto é que o pessoal responsável pela compressão de vídeo de algumas das edições da Arrow (referência em compressão de vídeo), também está por lá e dão uma verdadeira aula sobre o assunto. Fora os reviews paralelos de alguns usuários mais experientes lá que são uma verdadeira aula. Dá gosto de ler, pra quem se interessa pelo assunto.

Mas enfim, esse é o perfeccionista dentro de mim falando. Esse Blu-ray tá magnífico! Qualquer ressalva que eu tenha, tecnicamente falando, certamente foi deixada de lado pela euforia de assistir essa restauração. Foi simplesmente emocionante assistir esse clássico pela “primeira” vez. E também na ausência de outra edição baseada nessa restauração 4K para comparação, não dá pra comparar tecnicamente de forma justa e correta. O Blu-ray da Criterion é o que temos e pronto. Quando (e se) sair outra edição, aí sim caberá um review comparativo com mais precisão. Por enquanto, é só alegria. Ressalto também a excelente qualidade do DVD que acompanha o Blu-ray. Compressão de vídeo muito bem feita. É difícil eu elogiar um DVD, mas esse aqui tá de parabéns.

Temos uma seleção de extras razoável. Uma introdução do idealizador do World Cinema Project, o mestre Martin Scorsese (ele pronunciando Pixote é um tanto engraçado), e uma entrevista em português com o Babenco, de 25/03/2016, feita pela AMPAS (a Academia, que cuida do Oscar). O extra que consta como “U.S. Prologue” nada mais é do que o prólogo do Babenco antes dos créditos iniciais. Eu sempre achei que já fazia parte do filme, já que desde o VHS temos esse prólogo. Mas, conforme a explicação do menu, foi gravado especificamente para o mercado americano. Senti falta do excelente documentário nacional “Pixote In Memorian” presente no DVD alemão. Mas não tinha como sacrificar o espaço em disco ainda mais, senão a qualidade da compressão poderia ficar bem problemática.

As legendas em inglês estão, em sua maior parte, muito bem traduzidas. Em alguns pontos eu senti falta de uma tradução um pouco mais completa. Não é nada que atrapalhe o entendimento da fala em si, mas uma tradução um pouco mais completa com certeza daria um “entendimento” melhor da emoção da fala. E teve um ponto que peguei um erro de tradução. Na cena em que o Pixote está conversando com a psicóloga ruiva, pouco antes do Sapato interromper a sessão, o Pixote pergunta: “Você promente que VAI contar pro Juíz?”. Na tradução ficou “You promisse you WON’T tell the Judge?“, ou seja, “Você promete que NÃO VAI contar pro Juíz?”. É um erro teoricamente bobo, mas muda o sentido do diálogo. Como é uma coleção com 6 filmes em língua estrangeira, é bem capaz que tenha acontecido essa mesma coisa na tradução desses outros filmes (ou não).

Como se trata de um clássico do nosso cinema, fui bem generoso nos prints. São 16 cenas no total, comparando entre o péssimo DVD nacional, o até então ótimo DVD europeu, e o Blu-ray, totalizando então 48 prints. E conforme citei acima, fiz também os vídeos mostrando as diferenças do Blu-ray para os DVDs nas cenas duas cenas que mencionei.

Novamente, segue o link do Drive com os prints em PNG e os vídeos.

E feliz 2021!

Link direto para a edição na Amazon dos EUA:

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