PENSANDO O MERCADO | A importância do DVD, o rei da mídia física

Incluindo dados do mercado brasileiro!

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Em 26 de março de 1997 foi lançado no mercado americano o primeiro DVD. Era uma edição de Twister, um filme desastre dirigido por Jan de Bont, e que havia sido lançado nos cinemas em 1996. Além de ter sido a primeira edição no novo formato, recém disponibilizado, também foi o primeiro DVD com a certificação THX que já era uma referência nas edições de Laserdiscs.

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Assim sendo, neste ano comemoramos os 25 anos do lançamento do primeiro DVD. E o cenário agora é muito mais desafiador para a mídia física.

DVD ainda é o rei

A economia mundial não passa por um bom momento e podemos ver os sinais desta situação na forte inflação que assola países, ou nas cadeias logísticas incapazes de atender às necessidades de transporte ou ainda na falta de componentes eletrônicos para atendimento à demanda dos fabricantes. 

Isso também se faz sentir no mercado de mídia física que continua em queda e que já apresenta nos EUA sinais de abandono por parte de tradicionais revendedores americanos como a Best Buy, a Target e o Walmart, que aos poucos vêm deixando de exibir os produtos em suas lojas físicas e os transferindo apenas para as lojas online.  

No Brasil a situação não é diferente e após um ano consagrado como a Festa do Catálogo começamos 2022 com forte retração nos lançamentos de novos títulos além da constante reclamação de algumas distribuidoras com baixas vendas especialmente das edições em Blu-ray. 

Outra consequência deste cenário foi uma migração dos lançamentos de Blu-ray para DVD. Embora tenhamos tido lançamentos em Blu-ray, principalmente das majors, houve uma concentração de lançamentos neste primeiro semestre de 2022 das edições em DVD especialmente pelas distribuidoras independentes que passaram a investir mais neste formato.

Apesar de sermos um mercado muito pequeno, o nosso comportamento se assemelha ao que ocorre em mercados maiores como o americano. Nos EUA, até hoje o DVD é o formato que representa a maior parcela do volume de vendas, chegando em alguns meses a superar mais de 60% do volume vendido.

A previsão para 2022 é de que seja o ano de maior venda dos títulos em 4K nos EUA e ainda assim o DVD reina absoluto com uma média 57% das vendas neste formato. O grande perdedor neste processo é o Blu-ray que a cada dia fica mais espremido entre o popular DVD e o sofisticado 4K. Embora não tenhamos uma apuração como a realizada nos EUA, conseguimos através da boa vontade e disponibilidade de três lojistas alguns dados sobre as vendas no mercado brasileiro e que também demonstram a forte popularidade do DVD.

É notório que o DVD ainda vende muito e principalmente no marketplace (Shopee, Mercado Livre, etc.). Para os lojistas isso é um bom negócio pela maior abrangência do formato, ou seja, é possível atender uma parcela da população mais ampla se o título for lançado também em DVD. 

Por outro lado, a possibilidade de “furar a bolha” do colecionismo não se traduz diretamente em aumento de receita, pois o valor do produto é mais baixo. Podemos ver que nestas empresas a participação do DVD em faturamento está, em média, na casa dos 37% do faturamento total. É importante ressaltar que embora não tenha o maior faturamento, o DVD tem a maior margem e isso é um fator relevante na escolha do formato para novos lançamentos.

Estes números logicamente não são representativos de todo o mercado pois outros fatores devem ser considerados, como por exemplo, a composição dos produtos oferecidos na loja. Nas empresas que possuem forte orientação ao DVD o percentual do faturamento é muito superior, como é o caso da Classicline ou do CPC-Umes que possuem a maioria absoluta do seu catálogo no formato DVD.

Afinal, por que o DVD ainda é tão popular?

A resposta mais simples está no preço mais baixo, e esta é certamente uma variável importante nesta análise.

Mas outros aspectos também devem ser considerados, entre os quais os seguintes: 

  • Conhecimento e experiência com o formato;
  • Disponibilidade de players dedicados;
  • Oferta de determinados títulos para mercados específicos;
  • Falta de percepção de diferença entre o DVD e o Blu-ray; 

O DVD está presente no Brasil desde 1999 e foi por quase dez anos o formato de preferência de milhões de pessoas que frequentavam locadoras ou adquiriam os DVDs em livrarias, supermercados e até em lojas de conveniência. É um formato muito conhecido e que esteve dentro das casas da maior parte da população brasileira. 

Até hoje é possível comprar players dedicados de DVD no mercado brasileiro, com preços muito baixos, o que os torna disponíveis a uma maior parcela da população. Além disso existem milhões de videogames desde o Playstation 2 que suportam o formato. Até em carros era comum ver o DVD instalado e o formato teve o apoio de diversos fabricantes que investiram em players dedicados para veículos.

O Blu-ray chegou em 2008 com preços muito altos, pouca oferta de títulos e players dedicados muito caros, o que acabou diminuindo sua atratividade. Até hoje o custo mais elevado das edições em Blu-ray faz com que as Distribuidoras acabem optando por lançar determinados títulos apenas em DVD. E este se tornou o formato principal para o lançamento de títulos clássicos, contemporâneos ou com origem em países europeus ou asiáticos e que normalmente não possuem o mesmo nível de apelo dos blockbusters americanos. 

A questão então passa pelo que chamamos de valor percebido, isto é, o quanto damos de valor a um determinado produto em função do interesse que temos, na qualidade apresentada e no preço estabelecido. 

Podemos traduzir esta equação para a mídia física numa composição de fatores que podem ser representados da seguinte forma:

Valor Percebido = [Título] [Qualidade] [Preço]

Para cada consumidor o valor percebido pode ser totalmente diferente de outra pessoa. Desta forma se o título é atraente para alguém e a qualidade e o preço estão dentro dos parâmetros considerados aceitáveis por aquele consumidor então o valor percebido é alto.

Por outro lado, se o título é atraente, mas a qualidade ou o preço não estão dentro dos parâmetros de aceitação, então o valor percebido não é suficiente para que o consumidor se decida por adquirir a edição. O que se observa quando comparamos o valor percebido de um DVD e de um Blu-ray, para um mesmo título, é que para alguns consumidores não existe diferenciação suficiente para que venham a pagar um valor maior por aquela edição. Ou seja, a qualidade do DVD associada ao seu menor preço ainda são suficientes para que seu valor percebido se mantenha acima daquele do Blu-ray. 

O DVD ainda vale a pena mesmo?

Num mundo em que temos Blu-rays e 4K UltraHD não parece existir espaço para um formato antiquado e limitado como o DVD. E, portanto, a questão que se levanta é: ainda vale a pena comprar DVDs?

Podemos dizer que sim, vale a pena. 

Logicamente tudo depende essencialmente da origem do conteúdo e da autoração realizada no DVD. Se o título tiver uma boa Master e a autoração preservar a qualidade do conteúdo é possível ter uma edição em DVD com uma imagem excelente e que será exibido, mesmo numa TV 4K, com uma qualidade bem acima da média.

Existem também títulos em que o conteúdo não possui uma qualidade que permita uma transferência para um Blu-ray ou que efetivamente se destaque na imagem em Full HD. Um exemplo que evidencia este aspecto é a edição da Obras-Primas do clássico Viagem à Lua de Georges Méliès. Este é um filme em curta-metragem produzido em 1902 e considerado a primeira obra de ficção científica cinematográfica. A qualidade da imagem do máster disponível, e que é a última restauração realizada, não teria ganhos significativos em um Blu-ray e desta forma o lançamento em DVD é mais do que satisfatório.

Outro exemplo é a edição tripla de Invasores de Corpos da Classicline em DVD que quando comparamos o filme de 1978 com o Blu-ray ou com a edição 4K existe certamente uma menor resolução no DVD, mas o material original tem forte granulação o que ameniza a diferença. O maior problema está nas cenas com muito movimento onde a menor resolução acaba por enfatizar os artefatos e defeitos na imagem. Tudo isso logicamente é visível em grandes TVs como as de 55” ou maiores. Numa TV com menor tamanho a diferença é muito menor chegando a ser imperceptível dependendo da cena.

Por outro lado, temos edições em DVD cujo trabalho de autoração e de codificação do material original deixam a imagem com uma qualidade excepcional. Destaco aqui o excelente documentário do diretor Thiago Mattar, O Barato de Iacanga, lançado pela Versátil e que embora possua cenas de filmagens produzidas em baixa resolução, com câmeras Super 8, é possível destacar a excelência das imagens captadas pelo diretor em suas entrevistas e que são ressaltadas por uma boa autoração do DVD. 

Portanto é possível assistir, mesmo numa TV 4K de última geração, DVDs que tenham sido autorados com cuidado e cujo material original possua boa qualidade. É importante ressaltar que títulos clássicos que até hoje não tiveram restauração em 2K ou 4K pouco ganham com um lançamento em Blu-ray. O DVD além de possuir um custo muito inferior apresenta uma qualidade que é normalmente satisfatória para este tipo de conteúdo.

As distribuidoras independentes já possuem um extenso catálogo em DVD e agora começam a oferecer edições mais sofisticadas com um acabamento diferenciado, luvas, embalagens em Digipak e edições com múltiplos discos. 

A Versátil, por exemplo, tem inúmeras coleções que só foram lançadas em DVD como os Cinema de…, A Arte de…, Filme Noir, Clássicos Sci-Fi, Giallo além de muitas outras coleções e documentários. 

Da mesma forma a Classicline possui um extenso catálogo de filmes clássicos apenas disponibilizados em DVD e mais recentemente passou a lançar edições com um maior grau de sofisticação como as Coleções de Diretores como Coppola, Peter Weir, Tony Scott e Alfred Hitchcock e os recentes lançamentos como Coleção Invasores de Corpos, O Silêncio do Lago, Almas Gêmeas e o Planeta Proibido

A Obras-Primas sempre lançou edições em DVDs, mas nos últimos dois anos se concentrou em lançar edições premium no formato Blu-ray. No entanto, não deixou de lançar suas coleções em DVD e algumas tiveram muito sucesso como a Sessão Anos 80 que já está no 13ª volume, a coleção Divas que já possui cinco títulos como Greta Garbo, Ingrid Bergman e Barbara Stanwyck além de diversos outros títulos como os recentes Dorothy Arzner, Abbas Kiarostami e O Mundo é Culpado. Isso sem falar da edição premium da Quadrilogia Vingador Tóxico lançada no ano passado com quatro discos em embalagem Digipak. 

Resultante da associação da FAMDVD com a The Originals e a Bazini, a Famthozani lançou sua primeira edição em DVD Duplo com os filmes Allan Quatermain e as Minas do Rei Salomão e Allan Quatermain e a Cidade Perdida e mais recentemente a edição Re-Animator A Trilogia Completa em edição tripla.  

Não faltam opções de lançamentos em DVD e recomendo aos colecionadores que não se interessam pelo formato que reavaliem esta questão pois além de não desfrutarem de excelentes edições estão deixando passar conteúdos únicos e que muito provavelmente nunca serão lançados no Brasil em outro formato. 

Comparação entre DVD x Blu-ray x Blu-ray 4K

Para que pudéssemos avaliar a qualidade de determinadas edições fizemos uma seleção de DVDs de lançamentos recentes feitos no mercado nacional e de alguns DVDs mais antigos, mas que foram destaque na época em que foram lançados. A análise inclui a comparação entre a qualidade da imagem de vídeo, do áudio, das legendas e dos extras das edições em DVD, Blu-ray e 4K. 

Embora a comparação seja subjetiva, já que é resultado apenas de nossa observação direta, é interessante observar que algumas edições possuem uma qualidade bem aceitável e que mesmo numa TV 4K de 65” é possível assistir o conteúdo sem ficar incomodado com os defeitos e a menor resolução do DVD.

Quais títulos em DVD que podemos recomendar?

Abaixo segue uma listagem com títulos vendidos no Brasil e que possuem em geral uma boa qualidade de imagem para aquisição de colecionadores. Agradecemos a ajuda do Celso Menezes que fez diversas sugestões para a inclusão nesta listagem.

Comparando os títulos percebemos que alguns tipos de filme como as animações ou os filmes em preto e branco possuem edições em DVD com uma qualidade de imagem muito satisfatória. Também se percebe que novos lançamentos, principalmente de empresas independentes, buscam apresentar uma melhor qualidade de imagem de maneira a conquistar os consumidores, mesmo que isto signifique não colocar qualquer extra no disco já que o espaço é necessário para uma melhor acomodação do filme.

É importante ressaltar, como já dissemos anteriormente, que a qualidade final da edição depende muito da origem do conteúdo e por isso vemos várias edições com imagem mediana uma vez que o material utilizado não é de uma edição remasterizada em 2K ou 4K. Isto faz com que muitas distribuidoras tenham grande variação na qualidade de suas edições. 

Também vemos um crescimento nas edições que possuem uma melhor apresentação com a utilização de embalagens com luvas ou ainda combinados com Digipak. 

Não há dúvida de que o DVD será o rei da mídia física ainda por muitos anos.

Abaixo a nossa live debatendo o assunto:

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