Coluna do Fonseca: E agora, José?

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ghibli on blu-ray

Eu sou completamente apaixonado pelos filmes de Hayao Miyazaki e do Estúdio Ghibli. Em DVD eu possuía apenas A Viagem de Chihiro (meu favorito deles). Com a chegada do Blu-ray, decidi esperar para adquirir os filmes já em alta-definição. O prazer e satisfação de assistir a essas obras-primas em toda sua glória de áudio e imagem não tem preço (apesar de ter um custo). Há uns dois anos me deparei com as edições japonesas dos filmes do estúdio. Edições belíssimas, realmente itens de colecionador. Um pouco depois, a Disney, responsável pelos lançamentos dos filmes nos Estados Unidos e que já havia lançado vários deles em DVD, começou a lançá-los em Blu-ray. Aí comecei a ficar um pouco em dúvida de que edições comprar.

A favor das americanas, estava o preço. As edições japonesas são bem caras, um preço alto até mesmo para os japoneses. As americanas, por volta dos 20 e poucos dólares. Porém, nos primeiros lançamentos, algumas coisas me desanimaram com as edições americanas. Em primeiro lugar, o fato dos créditos dos dubladores americanos terem sido inseridos nas cenas iniciais de Ponyo, por exemplo. Para mim, um pecado. Sou exigente quanto a isso e se estou adquirindo um produto buscando a qualidade, quero que a obra não esteja maculada. Além disso, o BD de Ponyo também não trazia o áudio original japonês em DTS-HD, apenas em Dolby 5.1. Mais um pecado gravíssimo. Então por um tempo fiquei sem comprar nenhuma das duas. Até que há alguns meses decidi comprar a edição japonesa de O Castelo Animado. Além de ser um dos meus favoritos de Miyazaki, no momento em que adquiri, era a única edição do filme em Blu-ray disponível no mundo.

Não preciso nem dizer a alegria que foi essa aquisição. Uma daquelas vitórias que nós colecionadores de vez em quando conseguimos. Mas teve um preço. Bem salgado, diga-se de passagem. Comprei pela Amazon japonesa, que realiza as entregas apenas por courier, tive que pagar todos os tributos e taxas possíveis. Dezesseis reais além do pior caso possível que eu tinha calculado, para ser mais exato. Então, apesar da imensa alegria e satisfação com a compra (um dos melhores Blu-rays da minha coleção, tanto em aspectos técnicos quanto em apresentação), a facada serviu para eu saber que seria difícil completar essa empreitada.

Outro problema das edições americanas é o fato de terem poucos títulos lançados. Após os problemas iniciais que descrevi, eles melhoraram os lançamentos seguintes, trazendo os áudios originais em HD também em japonês. E recentemente, lançando logo de cara mais três filmes do estúdio. Comecei, novamente, a cogitar a compra nos EUA. Porque apesar do desejo em completar a coleção com as edições japonesas, a responsabilidade financeira estava batendo forte em mim. E eis que tudo isso acontece e passo a não ter mais escolha.

No momento em que escrevo, a aquisição de uma dessas edições diretamente da Amazon sairia por cerca de 75 dólares, enquanto a aquisição de uma japonesa, cerca de 85 dólares. Daí a diferença passou a não ser tão grande. E como colecionador, minha escolha continua sendo as edições da terra de Miyazaki. Mas a escolha ficou limitada entre o muito caro e o muito, muito caro.

E para mim, como debati no Jotacast 29, a pior consequência disso que ocorreu na Amazon americana é ficarmos sem opção de compra, na maioria das vezes. Porque, particularmente, quase todos os Blu-rays americanos que possuo, apesar de mais baratos (então), adquiri porque simplesmente não existem por aqui. Ou o filme não foi lançado, ou a edição traz extras não presentes aqui, ou possui uma apresentação muito superior à brasileira. E isso é o que me deixa com mais raiva e tristeza desse ocorrido. O desejo de ter algo e ser privado disso. Bem, talvez não privado, mas com a realização bem mais complicada.

Esse caso que descrevi é bem emblemático, porque se nos EUA a situação dos animes em Blu-ray já não é a ideal, aqui no Brasil eu não preciso nem comentar. E isso é algo realmente revoltante. Somos grandes consumidores, o brasileiro nunca comprou tanto, em qualquer setor, e mesmo assim, ainda enfrentamos preços absurdos, qualidade precária e a simples inexistência de uma série de produtos. E é esse último ponto o que mais me enfurece. Há uma série de coisas que simplesmente não existem aqui!

Ultimamente, algumas empresas parecem estar enxergando isso com mais visão. É o caso da Fox, que vem lançando edições especiais por aqui. Mas mesmo aí, apesar das boas intenções, da facilitação, eu não posso deixar de achar que pagar R$89,90 pelo Blu-ray do Titanic seja uma facada. E aqui, não cabe essa história de “conversão da moeda”. Temos que pensar em termos de “dinheiro”. Um americano ganha em dólares, um europeu ganha em euros. Para uma edição custar 89,90 “dinheiros”, tem que ser algo muito especial. E mesmo assim, haverá muita reclamação. E com razão, pois é um valor muito alto. Oras, as próprias edições americanas da Ghibli, que citei, que ficam por volta de 29,90, vejo muitos colegas americanos reclamando do preço. Ah, se eles soubessem que por aqui o máximo que conseguimos é um Akira em promoção por 29,90, com áudio de DVD e legenda para gavião ver…

Não estou colocando a culpa na Fox. Eles mesmos já explicaram sobre os impostos e nós, brasileiros escolados, sabemos que os impostos ferram, e muito, nossas vidas. E desculpe, sempre aparece algum reacionário para defender os impostos praticados no Brasil, mas só aceitarei o valor dos impostos que pagamos no dia em que as condições sociais forem iguais as da Suécia e Hungria, que têm impostos similares e até maiores que os nossos. Enquanto isso, nossa carga tributária não se justifica. Mas claro, isso já seria uma outra discussão…

Sobre a minha coleção de filmes do Estúdio Ghibli, estou inclinado a completá-la com as edições japonesas. Planejo comprar uma edição por mês, ou a cada dois meses. Já fazem três meses que planejo isso, desde a primeira aquisição, e ainda não tive coragem (financeira) de continuar a empreitada. Claro, se os filmes fossem lançados aqui no Brasil, ajudaria muito… Enquanto isso, vamos todos dando o nosso jeito. Mesmo que o jeito seja simplesmente não comprar nada.

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